Depois de anos de enrolação, ameaças de banimento e novela geopolítica, o TikTok finalmente anunciou que vai se separar (mais ou menos) da ByteDance, sua controladora chinesa.
Quem vai assumir? Um grupo liderado pela Oracle, a gigante de tecnologia americana, junto com Silver Lake e MGX (um fundo de investimentos de Abu Dhabi).
O CEO do TikTok, Shou Chew, mandou um memorando interno na quinta-feira (18) dizendo que acordos vinculantes foram assinados e que o negócio deve ser concluído em 22 de janeiro de 2026.
Ou seja: o TikTok vai virar meio americano, meio chinês — uma criança com dois pais que não se falam.
Como vai funcionar essa “venda”?
Calma, porque não é uma venda tradicional. É uma joint venture — ou seja, uma empresa compartilhada entre várias partes.
Veja como fica a divisão:
50% dos investidores serão novos:
- Oracle: 15%
- Silver Lake: 15%
- MGX (fundo de Abu Dhabi): 15%
- Outros novos investidores: 5%
30,1% ficam com afiliadas de investidores atuais da ByteDance
19,9% permanecem com a própria ByteDance
Traduzindo: a ByteDance vai continuar com quase 20% da empresa, e mais 30% ficam com gente ligada a ela.
Ou seja: metade da empresa ainda tem dedo chinês.
ByteDance perde o controle (mas não o algoritmo)
O ponto central do acordo é que a ByteDance vai perder o controle operacional do TikTok nos Estados Unidos.
Isso significa que:
Proteção de dados será controlada pela entidade americana
Moderação de conteúdo também
Segurança do algoritmo vai ficar sob supervisão dos EUA
MAS — e esse é um “mas” gigante — a ByteDance vai licenciar seu famoso algoritmo de recomendação pra nova empresa.
É tipo vender o carro, mas manter a chave do motor.
O algoritmo do TikTok é o que faz o app ser viciante. É ele que sabe que você gosta de vídeos de cachorros fazendo besteira e de teorias da conspiração sobre o Titanic.
Sem esse algoritmo, o TikTok vira só mais um app de vídeo qualquer.
Então, na prática, a ByteDance vai continuar indiretamente controlando o coração do TikTok.
Oracle: a guardiã dos dados (de novo)
A Oracle vai assumir o papel de guardiã dos dados dos usuários americanos.
Isso significa que ela vai armazenar e proteger as informações dos 170 milhões de americanos que usam o TikTok.
Só tem um problema: isso já foi tentado antes.
Anos atrás, TikTok e Oracle criaram o “Projeto Texas”, que tinha exatamente essa proposta: Oracle protegeria os dados, e tudo ficaria bem.
O governo americano rejeitou na época, dizendo que não era suficiente pra garantir segurança nacional.
Agora, estão tentando de novo. Com um nome diferente, mas basicamente a mesma ideia.
Vai funcionar dessa vez? Veremos.
Trump estendeu o prazo (de novo)
A lei que obrigava o TikTok a se separar da ByteDance foi assinada pelo Joe Biden em 2024, com prazo inicial de janeiro de 2025.
Mas Donald Trump, que voltou à presidência, estendeu o prazo várias vezes — a última sendo pra janeiro de 2026.
Por quê? Porque Trump percebeu que 170 milhões de americanos usam TikTok. Banir o app seria impopular pra caramba, especialmente entre jovens (que votam).
Então, em vez de banir, ele negociou essa venda meio esquisita.
Resultado? Trump consegue dizer que “resolveu o problema” sem realmente banir nada.
Mas a China aprovou isso?
Boa pergunta.
O memorando de Shou Chew não menciona a posição do governo chinês sobre o acordo.
E isso é estranho, porque a China tem leis que proíbem empresas chinesas de venderem tecnologias estratégicas (como algoritmos de IA) sem autorização do governo.
Então, ou:
A China já aprovou (mas ninguém confirmou)
A China ainda vai decidir (e pode travar tudo)
A China tá fingindo que não viu (e vai deixar rolar por debaixo dos panos)
Seja como for, sem o aval da China, o acordo pode não sair.
Críticos dizem que o acordo é furado
Mesmo que tudo seja aprovado, tem gente que não acredita que isso resolva o problema.
A lei aprovada no governo Biden dizia que o TikTok US e a ByteDance não poderiam ter nenhuma relação operacional.
Mas nesse acordo:
ByteDance mantém 19,9% da empresa
Afiliadas da ByteDance ficam com mais 30%
O algoritmo continua sendo da ByteDance (licenciado)
Ou seja: a relação existe. E isso pode ser contestado na Justiça.
Membros do próprio partido de Trump já disseram que o acordo pode ser derrubado por não cumprir a lei.
E o TikTok tá de boa
Enquanto tudo isso rola, o TikTok segue operando normalmente nos EUA.
No mesmo dia em que Chew anunciou o acordo, o TikTok realizou o TikTok Awards em Los Angeles — um evento estilo Oscar, com tapete vermelho e tudo.
Ou seja: a empresa tá confiante que não vai ser banida.
E com razão. Afinal, Trump já estendeu o prazo várias vezes, e agora tem um “acordo” no papel.
Resumo da ópera
O TikTok anunciou que vai se separar (mais ou menos) da ByteDance numa joint venture liderada pela Oracle, Silver Lake e MGX.
A ByteDance vai manter quase 20% da empresa, e mais 30% ficam com afiliadas dela. Ou seja: metade da empresa ainda tem ligação com a China.
O famoso algoritmo do TikTok continua sendo da ByteDance, que vai licenciar a tecnologia pra nova entidade americana.
A Oracle será a guardiã dos dados dos usuários americanos — mesma solução que já foi rejeitada antes pelo governo.
Críticos dizem que o acordo é furado e pode ser contestado na Justiça. A China ainda não se pronunciou oficialmente.
Via: Infomoney




