A Zhipu AI estreou na bolsa de Hong Kong com um resultado que poucos esperavam: ações subindo 15% logo na abertura. Para uma empresa de IA chinesa navegando entre sanções americanas e ambições globais, foi um voto de confiança importante.
Mas vamos aos números que realmente importam.
O que os investidores compraram
A oferta pública inicial levantou US$ 558 milhões e avaliou a empresa em cerca de US$ 551 milhões. É dinheiro suficiente para fazer barulho, mas ainda distante das gigantes americanas do setor.
A Zhipu faz parte dos chamados “tigres da IA” chineses — startups que desenvolvem grandes modelos de linguagem para rivalizar com OpenAI e Anthropic. No grupo estão nomes como DeepSeek, que recentemente chamou atenção global ao lançar modelos competitivos em desempenho e custo.
Fundada em 2019 por pesquisadores de uma importante universidade chinesa, a Zhipu tem algo que poucas startups conseguem: apoio explícito de Pequim. O governo chinês vê essas empresas como peças estratégicas na corrida tecnológica contra os Estados Unidos.
O problema que ninguém resolve
Em janeiro de 2024, a Zhipu entrou na famigerada Lista de Entidades do Departamento de Comércio dos EUA. O motivo oficial: suposta colaboração com as forças armadas chinesas.
Na prática, isso significa corte de acesso a tecnologias avançadas e expertise em semicondutores — exatamente o tipo de recurso que define quem consegue ou não treinar modelos de IA competitivos.
A empresa tentou contornar o problema expandindo para mercados onde as sanções pesam menos: Reino Unido, Singapura, Malásia, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Há projetos conjuntos de centros de inovação na Indonésia e no Vietnã.
É uma estratégia de diversificação clara, mas que levanta uma pergunta incômoda: dá para competir de verdade sem acesso irrestrito às cadeias globais de hardware de ponta?
A conta que não fecha (ainda)
Os números financeiros da Zhipu mostram uma empresa em construção. Em 2024, a receita foi de 312,4 milhões de yuans — cerca de US$ 44 milhões. É pouco quando se considera o custo de treinar e operar modelos de linguagem de grande escala.
Não por acaso, 70% do dinheiro levantado no IPO vai direto para pesquisa e desenvolvimento. A empresa precisa queimar caixa agora para ter alguma chance de competir depois.
O que vem por aí
O mercado respondeu bem à estreia da Zhipu, mas a verdadeira prova de fogo ainda está por vir. A MiniMax, outra startup chinesa de IA, deve abrir capital nos próximos dias.
Se a recepção for igualmente positiva, pode sinalizar o início de uma nova janela para empresas chinesas de IA no mercado de capitais. Se não, a Zhipu terá sido apenas um ponto fora da curva.
O que está em jogo aqui vai além de uma empresa ou de um IPO. É a pergunta maior: a China consegue construir campeãs globais de IA enquanto o mundo se fragmenta em blocos tecnológicos cada vez mais fechados?
Por enquanto, os investidores estão dispostos a apostar que sim. Mas apostas são uma coisa. Resultados concretos são outra bem diferente.
Via: NeoFeed




