INTERNACIONAL

UE aprova fim das importações de gás russo até 2027

(Foto: Exame | Reprodução)

A União Europeia aprovou nesta segunda-feira (26) a proibição definitiva de importações de gás russo até o final de 2027.

É o fim oficial da dependência energética que sustentou a economia europeia por décadas. Ou pelo menos, deveria ser.

Porque enquanto a lei foi aprovada, a prática mostra outra realidade: cinco países do bloco ainda gastaram 1,4 bilhão de euros em energia russa só no último mês. E dois deles — Hungria e Eslováquia — votaram contra a proibição.

O que foi aprovado

A lei proíbe:

  • Gás natural liquefeito (GNL) russo até o final de 2026
  • Gás de gasoduto russo até 30 de setembro de 2027

Há uma margem de flexibilidade: se um país tiver dificuldades para encher seus reservatórios com gás não russo antes do inverno, o prazo pode ser estendido até 1º de novembro de 2027, no máximo.

A aprovação aconteceu por maioria reforçada, permitindo que a lei passasse mesmo com a oposição de Hungria e Eslováquia — que continuam fortemente dependentes do gás russo e querem manter laços com Moscou.

A Bulgária se absteve.

Hungria vai contestar na Justiça

A Hungria já avisou que vai contestar a lei no Tribunal Europeu de Justiça.

O argumento provavelmente será de que a proibição afeta desproporcionalmente países que dependem estruturalmente de gás russo e que não têm infraestrutura alternativa para substituir o fornecimento a curto prazo.

Isso pode atrasar a implementação da lei. Ou criar exceções. Mas dificilmente vai derrubar a proibição completamente.

A dependência caiu — mas não acabou

Antes de 2022, a Rússia fornecia mais de 40% do gás consumido na União Europeia.

Em 2025, essa participação caiu para cerca de 13%, segundo dados da UE.

É uma redução enorme. Mas 13% ainda é muito. Principalmente considerando que a UE está em guerra econômica com a Rússia desde a invasão da Ucrânia.

E tem um detalhe: alguns países continuam pagando bilhões por energia russa enquanto dizem apoiar a Ucrânia.

Quem ainda está comprando gás russo

No último mês, os cinco maiores importadores de energia russa na UE gastaram 1,4 bilhão de euros, principalmente em gás e GNL, segundo o Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo.

Os maiores compradores foram:

  1. Hungria — o maior comprador do bloco
  2. França
  3. Bélgica

Hungria não surpreende. Viktor Orbán mantém relação próxima com Putin e tem bloqueado ou resistido a praticamente todas as sanções europeias contra a Rússia.

Mas França e Bélgica aparecerem no top 3 é problemático. Ambos países criticam a Rússia publicamente, apoiam a Ucrânia politicamente e participam de sanções. Mas continuam pagando Moscou por energia.

A contradição europeia

A UE está tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo:

  • Apoiar a Ucrânia militar e financeiramente
  • Restringir a economia russa para enfraquecer sua capacidade de guerra

Mas enquanto bilhões de euros continuam fluindo para Moscou em pagamentos por energia, essas duas coisas entram em conflito direto.

Cada euro pago por gás russo financia, direta ou indiretamente, a máquina de guerra russa. E a UE sabe disso.

A proibição aprovada agora é uma tentativa de resolver essa contradição. Mas até 2027 é tempo demais.

Por que a transição está demorando

Três razões principais explicam por que a UE não conseguiu cortar o gás russo mais rápido:

1. Infraestrutura:
Muitos países da UE, especialmente no Leste Europeu, foram construídos com infraestrutura energética dependente de gasodutos russos. Substituir isso leva anos.

2. Custo:
GNL de outras fontes (EUA, Qatar, Noruega) é mais caro que gás russo de gasoduto. E economias europeias já estão sob pressão com inflação e crescimento fraco.

3. Política:
Alguns governos, como Hungria e Eslováquia, têm laços políticos com Moscou e não querem cortar. Isso cria resistência interna no bloco.

O que acontece até 2027

Dois cenários possíveis:

Cenário 1: A UE consegue diversificar fontes de energia rapidamente. Aumenta importações de GNL de EUA, Qatar e Noruega. Acelera transição para renováveis. E corta o gás russo antes do prazo.

Cenário 2: A transição enfrenta atrasos. Países usam as exceções para estender prazos. Hungria ganha contestação na Justiça e cria brecha legal. E o gás russo continua fluindo por mais tempo.

Provavelmente, a realidade vai ficar em algum lugar no meio.

O recado da lei

A aprovação da proibição é simbólica e prática ao mesmo tempo.

Simbolicamente, a UE está dizendo: não vamos mais financiar a Rússia. Estamos do lado da Ucrânia.

Praticamente, está criando um cronograma vinculante para forçar países relutantes a se adaptarem.

Mas até 2027 chegar, bilhões de euros ainda vão para Moscou. E enquanto isso acontece, a contradição europeia continua viva.

A lição geopolítica

Dependência energética não é só econômica. É estratégica.

A Europa passou décadas construindo sua economia em cima de gás russo barato. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a UE descobriu que não tinha como cortar rapidamente sem se prejudicar.

Agora está pagando o preço dessa dependência. Literalmente. 1,4 bilhão de euros por mês.

E vai continuar pagando até conseguir substituir a infraestrutura, diversificar fornecedores e reduzir consumo.

Via: CNN Brasil