O México decidiu mexer em uma regra que estava praticamente intacta há mais de um século: a jornada semanal de 48 horas. A Câmara dos Deputados aprovou um projeto que reduz esse limite para 40 horas, de forma gradual, até 2030.
A proposta já passou pelo Senado, onde o partido governista Morena tem ampla maioria, e agora precisa ser validada pela maioria dos estados. A expectativa é que isso aconteça sem grandes obstáculos. A primeira redução, de duas horas, deve começar a valer em janeiro de 2027.
Na prática, a jornada cairá duas horas por ano até atingir as 40 horas semanais.
Mas o pacote não veio sozinho.
O que realmente muda
Hoje, a regra padrão permite 48 horas de trabalho por semana, normalmente distribuídas em seis dias, com apenas um dia de descanso.
A nova lei mantém esse modelo de um dia de folga a cada seis dias trabalhados. Ou seja, não cria dois dias obrigatórios de descanso por semana.
Além disso, o texto aumenta o limite de horas extras semanais de nove para 12 horas.
Aqui está o ponto que gerou debate.
Enquanto o governo destaca a redução da jornada oficial, a oposição argumenta que o aumento das horas extras pode, na prática, manter a carga real de trabalho elevada.
É como reduzir o limite de velocidade da via, mas liberar um “acelerador extra” para quem quiser usar.
Quem defende a reforma
A proposta foi apresentada em dezembro pela presidente Claudia Sheinbaum.
Segundo o governo, a ideia é modernizar as regras trabalhistas e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. O Ministério do Trabalho chegou a afirmar que o país está encerrando um ciclo de mais de 100 anos sem mudanças estruturais na jornada semanal.
Durante o debate, o deputado Pedro Haces declarou que produtividade não se constrói com exaustão, mas com dignidade.
O projeto foi aprovado com apoio praticamente unânime na votação geral da Câmara: 469 deputados presentes votaram a favor. Depois, os termos específicos foram aprovados com 411 votos.
Para o governo, a transição gradual evita choque nas empresas e permite adaptação ao longo dos próximos anos.
Quem critica
A oposição, incluindo o PRI, reconhece que reduzir jornada é positivo, mas diz que o texto ficou incompleto.
O principal argumento é simples: aumentar o limite de horas extras enfraquece a redução anunciada.
Além disso, os críticos defendiam que a lei deveria prever dois dias obrigatórios de descanso para cada cinco dias trabalhados, aproximando o México de padrões mais comuns em economias desenvolvidas.
Para eles, a reforma foi aprovada às pressas e poderia ter sido mais robusta.
O contexto econômico
O México é a segunda maior economia da América Latina e faz parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Mesmo assim, apresenta um dos piores indicadores de equilíbrio entre vida profissional e pessoal entre os países do grupo.
São mais de 2.226 horas trabalhadas por pessoa por ano.
Para efeito de comparação, em vários países europeus esse número gira em torno de 1.600 a 1.700 horas anuais.
Outro ponto importante: cerca de 55% dos trabalhadores mexicanos estão na informalidade. Isso significa que mais da metade pode não ser diretamente beneficiada pela nova regra, já que não segue integralmente a legislação trabalhista formal.
Além disso, o México tem a menor produtividade e os menores salários médios entre os 38 países da OCDE.
Ou seja, o desafio não é apenas trabalhar menos. É produzir mais valor por hora trabalhada.
Impacto no bolso
Para cerca de 13,4 milhões de trabalhadores formais que devem ser beneficiados, a mudança pode representar mais tempo livre sem redução salarial, já que o limite legal muda.
Na prática, a lógica é esta: se antes você trabalhava 48 horas para ganhar determinado salário, a ideia é que, ao final do processo, trabalhe 40 horas mantendo a mesma remuneração contratada.
Para as empresas, o cenário exige ajuste.
Menos horas oficiais podem significar necessidade de contratar mais pessoas para manter a produção no mesmo nível. Isso eleva custos, especialmente em setores intensivos em mão de obra.
Por outro lado, há estudos que indicam que jornadas menores podem aumentar a produtividade por hora. Funcionários menos cansados tendem a errar menos e render mais.
A questão é se isso vai se confirmar em um país com grande informalidade e desafios estruturais.
O que esperar agora
Se os estados aprovarem o texto, como previsto, a primeira redução entra em vigor em 2027.
A partir daí, o cronograma segue até 2030, quando a jornada oficial deve chegar a 40 horas semanais.
O que vale observar daqui para frente?
Primeiro, se as empresas vão compensar a redução com mais uso de horas extras.
Segundo, se haverá aumento real de contratações.
Terceiro, se a produtividade por hora trabalhada melhora ao longo do tempo.
No papel, o México está dando um passo para se alinhar a padrões internacionais de jornada.
Na prática, o resultado vai depender de como a lei será aplicada e de como mercado e trabalhadores vão reagir.
Reduzir horas é uma decisão política.
Transformar isso em mais qualidade de vida e mais crescimento econômico é o verdadeiro teste.



