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Nvidia dá sinais de que não vai mais investir na OpenAi

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Jensen Huang foi a uma conferência do Morgan Stanley e saiu de lá esfriando dois dos maiores negócios da história da IA.

O CEO da Nvidia afirmou que a fabricante de chips não pretende realizar novos aportes na OpenAI nem na Anthropic. O motivo oficial: as duas estão se preparando para abrir capital, o que encerra a janela para investidores privados.

Mas a história tem mais camadas do que isso.

O que mudou com a OpenAI

Meses atrás, o mercado esperava que a Nvidia injetasse US$ 100 bilhões na OpenAI. Era o tipo de número que gera manchete e aquece trimestre.

O que vai acontecer de verdade: US$ 30 bilhões. Um terço do que se esperava.

A justificativa de Huang foi direta: “O motivo é que eles vão abrir o capital.” A OpenAI está estruturando um IPO que pode avaliá-la em até US$ 1 trilhão. Com ações no mercado, qualquer investidor pode comprar uma fatia — não faz sentido entrar numa rodada privada às vésperas da oferta pública.

É a lógica do investidor, não do parceiro estratégico. A Nvidia está racionalizando a relação com a OpenAI como qualquer fundo faria.

O problema que ninguém queria nomear

Além do IPO, havia outro fator constrangedor: o risco dos chamados acordos circulares.

O esquema era mais ou menos assim: a Nvidia investiria bilhões na OpenAI. A OpenAI usaria esse dinheiro para comprar chips da Nvidia. A Nvidia registraria a receita, reportaria crescimento e o mercado aplaudiria.

O dinheiro sairia de um bolso e voltaria para o mesmo bolso, inflando os números de ambos os lados. O Financial Times foi um dos primeiros a apontar a desconfiança do mercado com essa dinâmica.

Não é ilegal. Mas é o tipo de estrutura que, quando vem a público, gera muita pergunta de analista em teleconferência.

O racha com a Anthropic

A relação com a Anthropic foi por um caminho diferente — e mais dramático.

No ano passado, a Nvidia investiu US$ 10 bilhões na empresa ao lado da Microsoft. Parecia o começo de uma parceria sólida.

Então, em janeiro, durante o Fórum de Davos, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, comparou a venda de chips americanos de IA para a China à “venda de armas nucleares para a Coreia do Norte.”

A indireta era para a Nvidia — que vende chips para clientes globais, incluindo no mercado asiático. Não é o tipo de comentário que fortalece uma parceria bilionária.

O golpe final veio do governo Trump

Nesta semana, o governo Trump proibiu agências federais de usarem a tecnologia da Anthropic.

O motivo: a startup se recusou a liberar seus modelos para o desenvolvimento de armas autônomas e vigilância. A Anthropic não quis. O governo boicotou.

Ironicamente, o boicote saiu pela culatra. Em 24 horas, o chatbot Claude ultrapassou o ChatGPT na App Store dos Estados Unidos, segundo dados da Sensor Tower. O usuário comum parece gostar de empresa que diz não para armas autônomas.

Mas para a Nvidia, a situação da Anthropic ficou mais complexa: uma investida no meio de uma briga com o governo americano é um risco que a fabricante de chips não precisa assumir agora.

O que isso significa para o setor

Os investimentos da Nvidia em startups de IA sempre foram lidos como sinal de confiança — e como validação de que o dinheiro das big techs em IA continuaria fluindo.

O recuo esfria essa narrativa.

Não significa que a Nvidia está pessimista com a IA. Longe disso — os resultados da empresa falam por si. Mas sinaliza que o ciclo de rodadas privadas bilionárias pode estar chegando ao fim, substituído por IPOs, ações negociadas em bolsa e uma relação mais transacional entre fornecedores de chips e desenvolvedores de modelos.

A era dos “megacordos privados” pode estar se encerrando. A era das empresas de IA negociadas em bolsa está começando.

Sam Altman entra em cena

O CEO da OpenAI, Sam Altman, tem apresentação marcada no mesmo evento do Morgan Stanley nesta quinta-feira (5).

Ele vai ter que responder perguntas sobre infraestrutura, sobre o IPO trilionário e, agora, sobre o que muda na relação com a Nvidia depois da declaração de Huang.

Altman é bom em apresentações. Mas esse vai ser um Morgan Stanley mais tenso do que o habitual.

O que vem por aí

Três pontos para acompanhar:

1. Como fica a relação Nvidia-OpenAI daqui pra frente? Menos investimento não significa ruptura — a OpenAI continua comprando chips da Nvidia. Mas a dinâmica muda quando o dinheiro circula de forma mais transparente via mercado público.

2. O IPO da OpenAI em US$ 1 trilhão é real? É a maior avaliação já atribuída a uma startup de tecnologia. O mercado vai colocar esse número à prova assim que o prospecto for publicado. Crescimento, margens, dependência de infraestrutura — tudo vai ser escrutinado.

3. O que acontece com a Anthropic? A briga com o governo americano saiu melhor do que o esperado em termos de popularidade. Mas perder contratos federais dói no faturamento. E perder a Nvidia como aliada estratégica também.

O recado

A Nvidia não está saindo da corrida da IA. Está apenas redefinindo como participa dela.

Menos megacordos privados, mais receita de chips vendidos para empresas que vão abrir capital e crescer com dinheiro do mercado público. É uma posição mais limpa, menos sujeita a questionamentos sobre acordos circulares e conflitos de interesse.

Jensen Huang foi ao Morgan Stanley e disse o que o mercado precisava ouvir: a Nvidia ganha dinheiro vendendo chips, não fazendo apostas em startups.

O resto é consequência.

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