A Receita Federal arrecadou R$ 222,11 bilhões em fevereiro — alta real de 5,68% em relação ao mesmo mês do ano passado e o melhor resultado para um mês de fevereiro desde o início da série histórica, em 2000.
No acumulado de janeiro e fevereiro, o total chegou a R$ 547,86 bilhões — também o melhor bimestre desde 2000.
São números sólidos. Mas um deles precisa de explicação antes de virar manchete.
O que puxou a alta
Três contribuições se destacaram no mês:
Previdência social: R$ 60,52 bilhões (+5,68%). A principal razão é a massa salarial crescendo — mais gente empregada, com salários maiores, paga mais previdência. A reoneração da folha de pagamentos também contribuiu: o benefício tributário que reduzia a contribuição de empresas de alguns setores foi encerrado, o que trouxe mais receita para o governo.
PIS/Cofins: R$ 47,6 bilhões (+8,45%). Crescimento de vendas e serviços puxaram o resultado. A Receita também cita a recuperação da arrecadação do setor de combustíveis — que passou por um período de isenções no ano passado e voltou a contribuir normalmente em 2026.
IOF: R$ 8,69 bilhões (+35,73%). Alta expressiva explicada principalmente por mudanças na legislação do imposto feitas no ano passado, que ampliaram a base de cobrança.
O número que parece absurdo — e é
A arrecadação sobre extração de petróleo e gás cresceu 712,7% em fevereiro, chegando a R$ 7,3 bilhões.
Setecentos e doze por cento. Na primeira leitura, parece que o governo descobriu um poço de petróleo embaixo do Planalto.
Não é isso.
A Receita Federal explica: a principal empresa do ramo — leia-se Petrobras — mudou sua classificação fiscal no fim do ano passado, de “refino de combustíveis” para “extração de petróleo”. Com isso, a arrecadação que antes entrava numa categoria passou a entrar noutra.
O dinheiro não aumentou de verdade. Mudou de gaveta.
É o tipo de variação que faz título de jornal, mas não diz nada de novo sobre a economia. Vale checar sempre que um número cresce centenas de por cento da noite para o dia.
O que os números de verdade dizem
Descontada a mudança de classificação da Petrobras, o quadro geral é de crescimento consistente mas sem aceleração dramática.
A economia está gerando mais renda — salários sobem, consumo cresce, empresas vendem mais. Isso se traduz em mais imposto pago. É o ciclo normal de uma economia que está funcionando razoavelmente bem.
O crescimento real de 5,68% em fevereiro e de 4,41% no bimestre são números acima da inflação — ou seja, a arrecadação está crescendo em termos reais, não só nominalmente.
Para o governo, que tem meta fiscal de superávit de 0,25% do PIB em 2026, arrecadação crescendo acima da inflação é uma boa notícia. Significa que a receita está vindo sem precisar criar novos impostos — pelo menos por enquanto.
O que vem por aí
O cenário mudou desde fevereiro. O petróleo passou de US$ 72 para US$ 100 o barril por causa da guerra no Oriente Médio. O governo zerou PIS e Cofins sobre o diesel como medida de contenção de preços.
Isso significa que em março e nos meses seguintes, a arrecadação de combustíveis pode cair — justamente um dos fatores que ajudou o bom resultado de fevereiro. O que o governo ganhou de um lado em crescimento econômico, pode perder de outro em renúncia fiscal.
A pressão inflacionária dos combustíveis também pode afetar o consumo nos próximos meses, o que reduziria a base de PIS/Cofins.
O recorde de fevereiro é real. Mas o ambiente mudou entre lá e cá.
O recado
A arrecadação de fevereiro mostra uma economia que está gerando receita de forma saudável — emprego, salário e consumo crescendo.
Mas o recorde tem uma asterisco importante: parte do crescimento vem de mudanças contábeis e de legislação, não só de atividade econômica real. E o cenário de março em diante é mais turbulento do que o de fevereiro.
Recorde histórico é bom. Ler os detalhes antes de comemorar é melhor.




