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Mark Cuban diz que a IA vai encurtar o expediente

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Mark Cuban tem uma teoria sobre o que as empresas inteligentes vão fazer com o tempo que a IA economiza dos funcionários: devolver esse tempo para os próprios funcionários.

A avaliação foi publicada pelo investidor no X/Twitter. Segundo ele, empresas mais estratégicas devem adotar políticas formais para reduzir a jornada de trabalho — começando com uma hora a menos por dia — sem cortar salários.

“É um passo que define o tom dentro de uma empresa”, escreveu Cuban.

O argumento

A lógica de Cuban é direta.

Agentes de IA dentro das empresas vão aumentar a produtividade dos funcionários. Tarefas que levavam horas vão levar minutos. O tempo sobra.

A questão é: para onde vai esse tempo?

Cuban aposta que as empresas mais bem geridas vão transferir esse ganho para os trabalhadores — encurtando o expediente em vez de simplesmente empilhar mais tarefas na agenda. “Empresas maiores e mais inteligentes vão permitir que seus funcionários criem e utilizem agentes, aumentando sua produtividade. Mas, mais importante, elas vão reduzir a jornada de trabalho em uma hora, para começar. Com o mesmo salário.”

A alternativa — que qualquer pessoa que já trabalhou numa empresa reconhece — é que a IA aumente a produtividade e o funcionário simplesmente receba mais trabalho para preencher o tempo que sobrou.

Cuban está apostando que as melhores empresas vão escolher o primeiro caminho. O ceticismo sobre isso é compreensível.

Por que Cuban tem credibilidade nesse assunto

Cuban não é só mais um bilionário com opinião.

Ele vendeu a Broadcast.com para o Yahoo por US$ 5,7 bilhões em 1999 — uma das maiores vendas da era das pontocom. É dono do Dallas Mavericks e investidor frequente no Shark Tank americano. E afirma já ter usado dezenas de ferramentas de IA na própria rotina de trabalho — o que, segundo ele, dá uma visão concreta sobre quanto tempo essas ferramentas conseguem economizar na prática.

Não é teoria. É experiência pessoal com ferramentas que ele mesmo usa.

O modelo de 40 horas já estava sendo questionado

A semana de 40 horas foi popularizada por Henry Ford no início do século XX. Desde então, pouco mudou — ao menos no papel.

Na prática, a pandemia fez algo que décadas de pesquisa sobre produtividade não conseguiram: forçou as empresas a abandonar o controle rígido de horários. Com trabalho remoto, o que passou a importar foi a entrega, não a presença.

Cuban observa que essa mudança já aconteceu informalmente. Muitos profissionais já reorganizaram suas rotinas, diminuindo o ritmo no fim do dia, ajustando horários para compromissos pessoais e baseando produtividade em resultado, não em horas presenciais.

O que ele defende é que as empresas oficializem isso — e usem a IA como o gatilho para tornar a mudança formal e universal, não só um benefício informal para quem tem autonomia suficiente para praticá-la.

O que isso tem a ver com o debate atual

Cuban não está sozinho nessa conversa. Elon Musk fez declarações parecidas meses atrás — a ideia de que a IA vai tornar o trabalho humano opcional em algum ponto do futuro.

Mas há uma diferença importante entre os dois argumentos.

Musk fala de um futuro distante, onde a IA faz tudo e os humanos podem optar por trabalhar ou não. Cuban fala de algo muito mais imediato: nos próximos anos, dentro das empresas de hoje, com as ferramentas disponíveis agora.

Uma hora a menos por dia, com o mesmo salário. Não é revolução. É ajuste.

O que as empresas tendem a fazer na prática

A história não é otimista aqui.

Toda vez que a produtividade aumentou — com a industrialização, com os computadores, com a internet — o benefício foi distribuído de forma desigual. Empresas ganharam mais. Trabalhadores ganharam um pouco. A jornada raramente diminuiu.

A semana de 40 horas que Ford popularizou foi uma conquista que levou décadas de pressão sindical para se consolidar. A semana de quatro dias, que pesquisas mostram ser viável sem perda de produção, ainda é minoria absoluta no mercado.

Cuban está descrevendo o que as empresas inteligentes vão fazer. Não o que a maioria vai fazer.

O recado

A ideia de Cuban é sedutora: a IA economiza tempo, as empresas devolvem esse tempo aos funcionários, todo mundo sai ganhando.

É possível. Algumas empresas vão fazer exatamente isso — e vão usar isso como argumento para atrair e reter talentos num mercado competitivo.

Mas a maioria provavelmente vai usar a IA para fazer mais com as mesmas pessoas, no mesmo horário, sem aumentar salário.

A diferença entre os dois cenários não vai ser a tecnologia. Vai ser a pressão — dos trabalhadores, dos sindicatos, da cultura de cada empresa.

A IA dá a oportunidade de trabalhar menos. Aproveitar essa oportunidade é uma escolha. E escolhas, em geral, precisam ser exigidas antes de serem concedidas.

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