O relatório Focus desta segunda-feira (30) trouxe duas mudanças que andam juntas: a inflação projetada subiu pela segunda semana consecutiva e a expectativa de corte de juros em abril encolheu pela metade.
Não é coincidência. A causa das duas mudanças é a mesma: o fechamento do Estreito de Ormuz.
O que mudou no Focus
Inflação (IPCA) em 2026: subiu de 4,17% para 4,31% — alta de 0,14 ponto percentual em relação à semana anterior. É a segunda semana seguida de revisão para cima.
Para 2027, a projeção ficou em 3,84%. Para 2028, 3,57%. A inflação esperada está subindo ao longo de todo o horizonte.
Selic no fim de 2026: permaneceu em 12,50% — mas o caminho para chegar lá mudou.
Câmbio em 2026: permaneceu em R$ 5,40.
PIB em 2026: subiu levemente, de 1,84% para 1,85%. Para 2027 e 2028, permanece em 1,80% e 2%, respectivamente.
A mudança mais importante: o corte de abril pela metade
Até a semana passada, o mercado esperava que o Copom cortasse a Selic em 0,50 ponto percentual na reunião de abril — levando a taxa de 14,75% para 14,25%.
Agora, a expectativa é de um corte de apenas 0,25 ponto percentual.
Não é uma mudança pequena. É o mercado dizendo que o Banco Central vai pisar no freio do ciclo de cortes — e a razão é o petróleo.
Por que o petróleo mudou o cálculo
O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo — foi fechado como consequência da escalada do conflito entre EUA, Israel e Irã.
Quando o Estreito fecha, o petróleo sobe. Quando o petróleo sobe, o diesel sobe. Quando o diesel sobe, sobe o custo de transporte de tudo — alimento, produto industrial, entrega.
Esse efeito contaminante é o que os economistas chamam de “choque de oferta”: algo que acontece fora do controle do Banco Central e pressiona a inflação de cima para baixo, passando por toda a cadeia de produção.
O problema para o BC é que ele não tem ferramenta para baixar o preço do petróleo. Se cortar os juros agora, pode estar afrouxando a política monetária num momento em que a inflação está sendo empurrada para cima por forças externas. O risco é que a inflação suba mais do que o esperado e o BC precise voltar a subir juros depois.
É a mesma lógica que Alckmin usou — subir juros não derruba o petróleo — mas vista pelo ângulo oposto: cortar juros também não ajuda quando o problema vem de fora.
O que isso significa na prática
A Selic ainda vai cair em abril. Mas menos do que o mercado esperava.
Se o corte for de 0,25 ponto, a taxa passa de 14,75% para 14,50%. Ainda muito alta — entre as maiores do mundo. Mas o ritmo de queda desacelerou.
Para quem tem dívida com juros variáveis, a notícia é que o alívio vai demorar mais. Para quem investe em renda fixa, os juros altos continuam por mais tempo — o que é bom para o rendimento das aplicações.
Para a economia mais ampla: crédito mais caro por mais tempo significa menos consumo, menos investimento, menos crescimento. O PIB projetado de 1,85% em 2026 já é modesto — e pode ser revisado para baixo se o petróleo continuar pressionando.
O que o mercado está monitorando
O Focus é uma foto do momento — e o momento está mudando rápido.
Se o Estreito de Ormuz reabrir e o petróleo recuar, as projeções de inflação caem junto e o espaço para cortar juros no ritmo anterior reaparece. O mercado voltaria a precificar 0,50 ponto de corte em abril.
Se o conflito escalar e o petróleo continuar subindo — ou se o fechamento do Estreito se prolongar — a inflação vai continuar sendo revisada para cima. E o BC pode optar por pausar o ciclo de cortes completamente, não só desacelerar.
Por enquanto, o mercado está no meio-termo: corta, mas devagar. E observa o Oriente Médio com um olho no barril e o outro no IPCA.
O recado
O relatório Focus desta semana é um retrato de uma economia que estava no caminho certo — inflação caindo, juros em queda, crescimento modesto mas positivo — e que foi atingida por um choque externo que o Brasil não controla.
A guerra no Oriente Médio chegou ao relatório Focus. E ficou.
Enquanto o Estreito de Ormuz estiver fechado, o BC vai ter dificuldade para cortar juros no ritmo que o governo quer. E o motorista vai continuar sentindo no posto o que os economistas medem nos modelos.




