ECONOMIA

Reforma tributária vai custar R$3 trilhões a população

image

A reforma tributária brasileira foi vendida como simplificação. Cinco impostos viram dois. O cálculo fica mais previsível. A burocracia diminui.

Tudo isso pode ser verdade — no longo prazo. O problema é o caminho até lá.

Segundo estimativa da consultoria Omnitax, o custo total de implementação da reforma pode chegar a R$ 3 trilhões até 2033, considerando adaptações em todas as pontas: governo federal, estados, municípios e as cerca de 21 milhões de empresas brasileiras que vão precisar mudar seus sistemas.

O que custa R$ 3 trilhões

Não é só tecnologia. É tudo que precisa mudar para o novo sistema funcionar.

Do lado do governo: a Receita Federal, os estados e os municípios precisam construir novos sistemas fiscais do zero e integrar tudo isso numa plataforma nacional. O futuro Comitê Gestor do IBS — o órgão que vai coordenar a arrecadação entre entes federativos — ainda nem existe de verdade.

Do lado das empresas: sistemas financeiros e fiscais precisam ser atualizados. Contratos com fornecedores precisam ser revisados. Cadeias produtivas precisam ser reorganizadas. Equipes precisam ser treinadas. E tudo isso precisa acontecer enquanto a empresa ainda opera com as regras antigas.

Entre os pontos de maior impacto estão a criação e integração dos novos sistemas, a implementação do split payment — que separa automaticamente o valor do imposto na hora da compra — e a centralização de documentos fiscais em ambiente nacional.

O pior problema: sete anos com dois sistemas ao mesmo tempo

Uma das razões para o custo ser tão alto é o longo período de transição.

A reforma vai funcionar em paralelo com o sistema atual de 2026 a 2033 — sete anos em que empresas e governos vão precisar manter duas estruturas operacionais ao mesmo tempo.

Pense no custo de manter dois sistemas de gestão diferentes, dois times de compliance, dois processos de apuração — por sete anos consecutivos. Para pequenas e médias empresas, isso pode ser proibitivo. Para empresas grandes, é caro mas viável. Para o governo, é um desafio de gestão sem precedente.

O cronograma

  • 2026: fase de testes. CBS e IBS começam a ser cobrados simbolicamente.
  • 2027: começa a substituição efetiva de PIS e Cofins.
  • 2029 a 2032: ICMS e ISS são progressivamente reduzidos enquanto os novos tributos aumentam.
  • 2033: o novo sistema entra em vigor completamente. Os cinco tributos antigos desaparecem.

O que muda de verdade

O coração da reforma é a substituição de cinco impostos por dois:

Saem: PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI.

Entram: CBS (federal) e IBS (estadual e municipal).

Além da simplificação numérica, há mudanças estruturais relevantes:

O imposto passa a ser cobrado no destino — onde o produto é consumido, não onde é produzido. Isso redistribui arrecadação entre estados e vai criar ganhadores e perdedores regionais.

A não cumulatividade plena significa que empresas vão ter mais crédito ao longo da cadeia — o imposto pago numa etapa pode ser descontado na etapa seguinte com mais abrangência do que hoje.

O split payment automatiza a separação do imposto no momento da venda. Menos sonegação, menos disputa sobre quem devia o quê.

O que já foi gasto

O governo federal não está esperando 2033 para começar a gastar.

Até março de 2026, os investimentos em tecnologia já consumiram R$ 1,6 bilhão. E ainda havia em 2025 cerca de R$ 8 bilhões em dívidas relacionadas ao fundo de compensação da reforma — valores que precisam ser pagos para estados e municípios que perdem receita durante a transição.

Esses são só os custos do governo. Os R$ 3 trilhões da estimativa da Omnitax incluem também o que as empresas vão gastar — e esse número é muito maior.

A pergunta que ninguém quer fazer

“O Brasil precisa olhar para o ROI da reforma. Se não houver simplificação efetiva, existe o risco de investir valores gigantescos apenas para substituir uma complexidade por outra.”

A frase é de Paulo Zirnberger, CEO da Omnitax — e resume o risco central que poucos estão discutindo publicamente.

A reforma pode simplificar o sistema tributário brasileiro. Ou pode criar um sistema igualmente complexo, só que diferente. A burocracia muda de endereço mas não diminui.

O Brasil já tem um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. A reforma está sendo implementada por dentro desse mesmo sistema — pelas mesmas instituições, com os mesmos processos políticos e os mesmos conflitos de interesse entre União, estados e municípios.

A estrutura teórica é boa. A execução é o teste real.

O recado

A reforma tributária foi aprovada. Está sendo implementada. E vai custar muito dinheiro antes de economizar qualquer coisa.

R$ 3 trilhões em adaptação até 2033. Sete anos de dois sistemas coexistindo. 21 milhões de empresas precisando mudar processos, sistemas e contratos.

Se no fim disso o país tiver um sistema tributário mais simples, previsível e eficiente, valeu cada centavo.

Se não, teremos trocado uma complexidade por outra — só que depois de gastar o equivalente ao PIB de vários estados para fazer a troca.

A reforma está escrita. O sucesso ainda está por ser executado.

Fonte