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BNDES quer montar um fundo de R$400 milhões para IA

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O BNDES e a Finep lançaram um edital para montar um fundo de investimento em startups de inteligência artificial. O fundo pode chegar a R$ 400 milhões em capital comprometido — e vai durar 12 anos.

A chamada pública foi aberta nesta semana. As propostas de gestores interessados em administrar o fundo podem ser enviadas até 28 de maio.

Como o fundo vai funcionar

O Fundo de Investimento em Participações (FIP) terá capital mínimo de R$ 160 milhões e pode chegar a R$ 400 milhões com a participação de outros investidores além do governo.

O BNDES — via BNDESPar, sua subsidiária de participações — vai aportar entre R$ 40 milhões e R$ 125 milhões. A Finep entra com entre R$ 40 milhões e R$ 80 milhões. Cada uma fica com até 25% do fundo — ou seja, o governo quer que a maior parte do capital venha do setor privado.

O período de investimentos será de cinco anos. Depois disso, o fundo começa a desinvestir e distribuir os retornos. O prazo total é de 12 anos.

O que o fundo vai financiar — e o que não vai

O edital foi claro em algo que raramente os editais governamentais são: IA precisa estar no núcleo do negócio, não como ferramenta acessória.

Isso exclui empresas que simplesmente “usam IA” em algum processo interno. O fundo quer startups onde a IA é o produto — o que gera valor, o que diferencia, o que escala.

Os setores prioritários:

  • Agronegócio e cadeias agroindustriais
  • Saúde
  • Infraestrutura, saneamento, mobilidade e logística
  • Transformação digital da indústria
  • Bioeconomia e descarbonização
  • Tecnologias para soberania nacional, cibersegurança e defesa

A lista é ampla — praticamente qualquer startup de IA aplicada a setor produtivo se encaixa em alguma dessas categorias.

A cota regional que ninguém vai ignorar

A Finep vai exigir que 30% do que investir vá para startups localizadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

É uma tentativa de distribuir o ecossistema de IA além de São Paulo e do eixo Rio-SP, que concentram a esmagadora maioria do capital de venture no Brasil.

Para startups fora desse eixo, o fundo pode ser uma das poucas fontes de capital institucional disponíveis — o que aumenta o poder de barganha delas na seleção.

O que o gestor precisa ter

O edital define critérios objetivos para escolha do gestor. Os principais:

Histórico em venture capital e seed: equipes com experiência em investimentos iniciais em startups levam vantagem — é um estágio de risco diferente de private equity tradicional.

Experiência na cadeia de IA: gestores que já investiram em IA antes têm pontuação maior. O BNDES não quer ensinar um gestor a entender o setor durante o período de investimentos.

Diversidade: políticas internas de diversidade de gênero, etnia e inclusão de pessoas com deficiência são critérios de pontuação — não só boas práticas declaradas.

Track record: histórico de retorno financeiro em fundos anteriores. Não basta ter boas intenções — precisa ter comprovado que sabe transformar capital em resultado.

O cronograma

  • 28 de maio de 2026: prazo para envio de propostas
  • 8 de setembro de 2026: divulgação da classificação final

Ou seja, o gestor será escolhido no segundo semestre. O fundo começa a operar de verdade em 2027 — no mesmo ano em que a reforma tributária começa a substituir PIS e Cofins pelos novos tributos.

Por que isso importa

O Brasil tem quase 40 milhões de investidores em cripto, uma das maiores fintechs do mundo (o Nubank), e empresas de tecnologia competitivas internacionalmente. Mas o ecossistema de startups de IA ainda é pequeno comparado ao dos EUA, China ou mesmo Israel.

O principal gargalo não é falta de talento — é falta de capital de longo prazo. Investidores privados no Brasil tendem a ser avessos ao risco tecnológico, especialmente em estágios iniciais e em empresas fora dos grandes centros.

Um fundo com capital governamental que atua como âncora — comprometendo R$ 80 a 200 milhões e atraindo capital privado para completar os R$ 400 milhões — é exatamente o tipo de intervenção que pode criar momentum para o ecossistema.

O recado

O governo federal está colocando dinheiro em startups de IA. Não muito, comparado ao que está sendo investido globalmente — R$ 400 milhões é uma fração do que a OpenAI levantou só neste mês.

Mas é capital de longo prazo, com foco setorial claro e com cota regional que força o dinheiro a chegar onde o mercado privado não chega naturalmente.

Para gestores de venture capital com experiência em IA, o edital é uma oportunidade real — com capital garantido do governo e a possibilidade de atrair coinvestidores privados ao redor de uma tese já financiada.

Para startups de IA fora de São Paulo: prestem atenção. Essa janela não abre todo ano.

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