Sabe quando o preço do supermercado explode e você tenta fechar a conta do mês trocando a marca do sabão em pó, usando cupom de desconto e pedindo dinheiro emprestado, mas, no fundo, sabe que a conta real ainda não fecha?
É exatamente esse o malabarismo que o governo federal está fazendo para tentar segurar os preços dos combustíveis no bolso do brasileiro. Com o barril de petróleo operando nas alturas devido aos conflitos no Oriente Médio, o governo canetou uma nova estratégia: decretou um subsídio de R$ 0,44 por litro para a gasolina e criou um modelo inédito de “cashback equivalente a impostos” de R$ 0,35 por litro para o diesel.
A medida chega para substituir a antiga isenção de PIS/Cofins, que estava com os dias contados para expirar no fim de maio. O problema? Para os grandes bancos e analistas do mercado financeiro, esse remédio pode não ser suficiente para curar a febre.
Onde o filho chora e a mãe não vê
Em bom português, o mercado financeiro — representado aqui pelas análises do Itaú BBA e do Bradesco BBI — correu para a calculadora para ver se a conta da Petrobras (PETR3; PETR4) vai fechar com esses novos subsídios. E a resposta é: para o diesel sim, mas para a gasolina a situação continua crítica.
No caso do diesel, o Itaú BBA avalia que o preço praticado pela estatal ficou bem alinhado à política comercial. Mesmo considerando as novas regras, o preço efetivo realizado pela companhia está acima da referência de paridade de importação (o chamado PPI ajustado pelos subsídios). Ou seja, o diesel está no preço certo para o mercado.
O verdadeiro fantasma mora na bomba de gasolina:
O tamanho do rombo: Mesmo com o desconto de R$ 0,44 dado pelo governo, o preço praticado pela Petrobras na gasolina ainda está mais de 20% abaixo da referência do mercado internacional.
A matemática do pão de queijo
Se você é um investidor de 5 anos e quer entender por que os bancos estão dizendo que a Petrobras vai precisar aumentar a gasolina em breve, dê uma olhada no tamanho da distância entre o Brasil e o resto do mundo:
- O spread zero da gasolina: O Bradesco BBI estima que, com as novas regras, o preço implícito da gasolina da Petrobras subiria para cerca de US$ 95 por barril.
- A realidade do Golfo: O problema é que a referência internacional (no Golfo dos EUA) está rodando na casa dos US$ 142 por barril.
- Margem sufocada: Essa diferença esmaga o chamado “gasoline crack spread” (a margem de lucro que a Petrobras tem para refinar o combustível) para perto de zero. Nenhuma empresa sobrevive vendendo o almoço para pagar o jantar por muito tempo.
O pulo do gato
A grande questão de bastidor que o investidor precisa monitorar é o cabo de guerra político e comercial.
O Itaú BBA faz um alerta importante: embora a matemática aponte que a Petrobras precisa urgentemente subir o preço da gasolina para se alinhar ao mercado internacional, a diretoria da estatal pode adotar parâmetros e prazos diferentes dos modelos dos bancos para definir sua política comercial, segurando o reajuste o máximo que puder para evitar o desgaste político do governo.
Por outro lado, o Bradesco BBI jogou uma luz no fim do túnel: existe um projeto em andamento para reduzir o PIS/Cofins especificamente sobre a gasolina. Se esse projeto for aprovado pelo Congresso, abrirá um “colchão” ou espaço político para que a Petrobras faça os reajustes necessários sem que o preço final suba tanto para o consumidor na ponta do posto.
Por que você deve se importar (mesmo se não tiver carro)
O preço dos combustíveis é o sangue que corre nas veias da economia brasileira. Se a Petrobras continuar vendendo gasolina 20% abaixo do preço internacional para subsidiar o consumidor, ela queima o seu próprio caixa e distribui menos dividendos para os acionistas (inclusive para a União). Se ela aumentar o preço para fechar a conta do mercado, o frete encarece e a inflação do supermercado volta a assombrar o Banco Central.
Como costumamos dizer no escritório: o subsídio do governo ajuda a amortecer a queda, mas enquanto o petróleo global continuar flertando com patamares de crise, a Petrobras continuará pilotando com o tanque na reserva da paciência do mercado.
Você acha que o governo vai conseguir segurar a inflação com esse modelo de cashback ou o aumento da gasolina na bomba é inevitável nas próximas semanas?



