ECONOMIA

Cury diz ser a favor de taxar bigtechs e cita Mark Zuckerberg

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O psiquiatra e escritor que vendeu mais de 35 milhões de livros propondo a gestão da emoção agora quer gerir o orçamento e a regulação das maiores empresas do planeta a partir do Palácio do Planalto.

O imposto do vício digital

Na visão de Cury, rolar o feed do Instagram ou assistir a vídeos infinitos no TikTok não é muito diferente de acender um cigarro. A lógica econômica proposta pelo candidato do Avante para as big techs é simples: tributação punitiva proporcional ao potencial de vício da plataforma. Quanto mais viciante o algoritmo se provar para o usuário, maior deve ser a alíquota recolhida pela empresa.

O candidato defende que os dólares arrecadados com essa taxação pesada sirvam para compensar os custos sociais do consumo digital excessivo. A cobrança viria acompanhada da responsabilização criminal e civil direta dos executivos do setor pelos impactos das redes na saúde mental de jovens. Na prática, a proposta pretende transferir o ônus financeiro e jurídico do vício digital das famílias para o balanço patrimonial das companhias do Vale do Silício.

Apesar da ofensiva regulatória e fiscal contra as plataformas, o plano não prevê o banimento de redes sociais como o Discord nem a criação de órgãos estatais de controle de conteúdo. Cury prefere manter os canais abertos — inclusive propondo que o Itamaraty use essas mesmas redes para vender a imagem do Brasil no exterior — enquanto aperta o cerco financeiro sobre quem controla os algoritmos.

A conta médica dos algoritmos

O diagnóstico de saúde pública que sustenta a plataforma eleitoral de Cury trata a tecnologia como um fator direto de risco para ansiedade, irritabilidade e dependência entre crianças e adolescentes. A proposta estabelece um limite biológico e regulatório claro: restrição total de acesso a redes sociais para menores de 14 anos e imposição de multas bilionárias às empresas em casos comprovados de danos à integridade física ou psicológica de jovens.

A fiscalização, contudo, não ficaria restrita ao Estado. O plano transfere para a rotina doméstica a obrigação de impor o detox digital, sugerindo períodos de desconexão forçada dos celulares aos fins de semana. A tese é de que a epidemia de ansiedade não será resolvida apenas com remédios ou terapia, mas com o estrangulamento financeiro das ferramentas que monetizam a atenção infantil.

Mente de mercado, discurso de centro

Para se equilibrar na corrida presidencial sem o apoio dos grandes blocos partidários, Cury tenta se posicionar fora da polarização tradicional usando um bordão próprio: mente capitalista e coração social. O lado capitalista defende privatizações pontuais, defesa da meritocracia, incentivo ao empreendedorismo, corte de gastos públicos e a manutenção da família tradicional como núcleo econômico.

O lado social entra na agenda para capitanear pautas que o candidato considera negligenciadas pelo debate ideológico, como o apoio ao autismo, o combate à violência contra a mulher e o resgate da autoridade dos professores em sala de aula. A estratégia tenta pescar o eleitorado conservador que rejeita a retórica da esquerda, mas que também se diz cansado da pauta de costumes radicalizada da direita.

O cálculo jurídico da anistia

Diante de um dos temas mais espinhosos da política recente, a anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, Cury optou pela neutralidade calculada. Em vez de assinar o perdão amplo defendido pela ala bolsonarista ou chancelar integralmente as penas impostas pelo Judiciário, o candidato propõe terceirizar a decisão.

A proposta prevê a criação de uma comissão internacional de juristas para auditar cada um dos processos conduzidos pelo Supremo Tribunal Federal. O objetivo anunciado é procurar nulidades ou excessos individuais nos julgamentos. Na mesma linha de enfrentamento ao Judiciário, Cury defende o uso do impeachment contra ministros do STF em caso de eventuais abusos de autoridade, mantendo uma ponta de lança alinhada ao eleitorado crítico da corte.

O recado

Augusto Cury tenta transformar a venda de inteligência emocional em plataforma de governo, apostando que o eleitorado brasileiro troca a polarização política pelo combate ao vício em telas. Ao propor tratar a Meta e a Alphabet como se fossem indústrias do tabaco, o psiquiatra testa se o eleitor quer um gestor público tradicional ou um terapeuta com a caneta do Executivo na mão. O desafio é provar que as receitas de autocuidado que funcionam nas prateleiras das livrarias resistem ao choque de realidade do Congresso e do mercado financeiro.

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