Sabe quando você combina de fazer aquele churrasco de fim de semana com a galera, calcula que cada um vai comer meio quilo de picanha, mas na hora H metade do pessoal virou vegetariano e a outra metade levou salsicha?
Pois bem, a Receita Federal passou exatamente por isso. O governo fez as contas achando que a nova tributação sobre dividendos seria o “filé mignon” das contas públicas em 2026, mas o prato principal encolheu antes mesmo de chegar à mesa.
O chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita, Claudemir Malaquias, jogou a real nesta terça-feira: a expectativa inicial de arrecadar R$ 29 bilhões desmoronou para R$ 10,5 bilhões até o fim do ano. Para quem está acompanhando o placar de perto, em julho a projeção já tinha caído para R$ 17,2 bilhões. Ou seja: foi um tombo atrás do outro.
Onde o filho chora e a mãe não vê
Em bom português, o governo usou a taxação de dividendos para bancar a promessa de ampliar a isenção do Imposto de Renda para a classe média. Só que esqueceu de combinar com o russo — ou melhor, com os diretores e acionistas das empresas.
Sabe quando avisam que a tarifa do pedágio vai subir à meia-noite e todo mundo acelera para passar pela praça às 23h59? Foi exatamente o que o mercado corporativo fez em 2025. Vendo a tributação no horizonte, as empresas adiantaram a distribuição de lucros aos montes no ano passado para fugir da garfada do leão em 2026.
De janeiro a agosto, entraram nos cofres públicos minguados R$ 4,03 bilhões:
- R$ 2,615 bilhões vieram dos proventos acima de R$ 50 mil pagos no Brasil;
- R$ 1,415 bilhão veio da alíquota de 10% cobrada sobre os dividendos enviados para fora do país.
Agora, a Receita está apelando para a estatística do “pelo menos está melhorando”, dizendo que a arrecadação vem subindo mês a mês e que, se tudo der certo no tiro de meta até dezembro, encosta nos R$ 10,5 bilhões.
A matemática do pão de queijo
Se você é um investidor de 5 anos tentando entender por que essa frustração de receitas é um pepino dos grandes para o país, preste atenção nestes pontos:
- Efeito “Passado Limpo”: A antecipação massiva de dividendos em 2025 limpou o caixa das empresas para 2026. O governo tributou um deserto, porque a festa dos lucros isentos aconteceu antes de a lei entrar em vigor.
- A saia justa no Planejamento: Em julho, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, segurou a projeção antiga nas contas oficiais alegando “conservadorismo”. Só que agora não tem mais como esconder a poeira embaixo do tapete: a realidade bateu à porta.
- Tijolo no fiscal: A perda de quase R$ 19 bilhões em relação à meta original cria um buraco no Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas que sai nesta quinta-feira.
- A tesoura vem aí: Se a arrecadação cai e a meta fiscal continua lá, a matemática é cruel: o governo vai ter que congelar (contingenciar) verbas de ministérios para cumprir o Arcabouço Fiscal.
O pulo do gato (ou a mordida do leão)
A estratégia do governo de depender de arrecadação extraordinária para fechar a conta do orçamento encontrou seu limite prático: o comportamento do contribuinte.
Malaquias confirmou que os novos números, bem mais modestos, terão que ser incorporados à força no relatório que sai nesta semana. Esse documento reavalia as contas federais a cada dois meses e é o termômetro que diz se o governo precisa trancar o cofre ou se pode gastar.
Com R$ 18,5 bilhões a menos no radar do que o planejado lá no início do ano, a equipe econômica fica sem margem de manobra.
Por que você deve se importar
Para o mercado, o recado é direto: sem o dinheiro mágico dos dividendos, a pressão sobre o déficit público aumenta.
Se o governo precisa contingenciar gastos para compensar essa frustração de receita, o ritmo de obras, serviços e investimentos públicos desacelera. Além disso, a incerteza fiscal mantém os juros altos por mais tempo e deixa o investidor com a pulga atrás da orelha.
No final das contas, a Receita aprendeu a lição mais antiga do mercado financeiro: você pode criar o imposto que quiser, mas o capital sempre encontra uma saída estratégica antes de a canetada cair no Diário Oficial.



