Sabe quando a diretoria do condomínio decide manter a taxa de manutenção alta por mais um tempo para cobrir os estragos das tempestades, prometendo que só vai dar algum desconto no boleto no ano que vem?
Pois bem, os grandes bancos brasileiros estão com esse exato diagnóstico na mesa. A nova edição da Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas, divulgada pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) após ouvir 20 instituições financeiras no fim de setembro, mostra que 50% dos bancos preveem a Selic em 13,50% ao ano ao final de 2026.
A retomada de um ciclo consistente de cortes nos juros básicos ficou empurrada para março de 2027. Embora a mediana das projeções ainda aponte para um pequeno ajuste residual de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom em novembro, a mensagem de fundo é clara: o freio monetário vai continuar puxado por mais tempo.
Onde o filho chora e a mãe não vê
Em bom português, para as famílias e empresas que dependem de financiamento no balcão do banco, a vida não promete alívio imediato no custo do dinheiro.
Sabe aquela expectativa de ver a economia engrenando uma marcha mais rápida? Os bancos estão pisando no freio do otimismo por conta de choques simultâneos de oferta que continuam pressionando a inflação:
- Inflação Mais Salgada: Metade dos bancos ouvidos (50%) já avalia que o IPCA de 2026 vai estourar a estimativa de consenso de 4,9%, revelando uma piora clara na percepção inflacionária em relação ao levantamento de agosto.
- PIB no Sufoco: Com o custo do crédito elevado travando setores mais sensíveis a juros (como varejo e indústria), 45% das instituições acreditam que o PIB vai crescer abaixo dos 1,85% previstos pelo mercado.
- Fed Apertando nos EUA: No cenário externo, 75% das instituições financeiras apostam em mais uma alta de 0,25 ponto nos juros pelo Federal Reserve até o fim do ano para conter a inflação americana, o que enxuga a liquidez global.
A matemática do pão de queijo
Para você entender onde o setor bancário está colocando suas fichas para o fechamento de 2026 e o ciclo de 2027, veja o raio-X dos indicadores:
| Indicador Analisado | Projeção / Percepção dos Bancos | Leitura do Mercado Bancário |
| Selic no Fim de 2026 | 13,50% ao ano (50% dos bancos) | Mantida em patamar restritivo; 30% não veem mais cortes este ano. |
| Corte de Juros (Próximo) | -0,25 p.p. na reunião de novembro | Mediana indica corte residual antes da pausa até março/2027. |
| IPCA 2026 | > 4,90% (50% dos entrevistados) | Piora na expectativa motivada por choques de oferta. |
| Crescimento do Crédito | 8,9% (2026) | 7,4% (2027) | Expansão sustentada principalmente pela carteira direcionada. |
| Inadimplência Livre | 6,1% (2026) | 5,9% (2027) | Pressão contínua sobre as famílias e empresas endividadas. |
O pulo do gato (ou o pulo do endividamento)
O ponto que acende o sinal amarelo para o consumidor na pesquisa da Febraban é a trajetória da inadimplência e do crédito.
Para 65% dos bancos consultados, a inadimplência das famílias vai continuar subindo até o fim do ano, refletindo o efeito acumulado do elevado comprometimento de renda dos brasileiros com dívidas antigas sob juros altos.
Ainda assim, a carteira de crédito total deve expandir 8,9% em 2026 e 7,4% em 2027. O “pulo do gato” dessa conta está na carteira direcionada (crédito imobiliário, rural e BNDES com regras e subsídios do governo), que atuará como o principal amortecedor da desaceleração da carteira livre (crédito pessoal, cartão e cheque especial).
Por que você deve se importar
Para a gestão das suas finanças pessoais e negócios no último trimestre de 2026, a pesquisa da Febraban entrega direcionamentos práticos:
- Evite Dívidas de Longo Prazo sem Subvenção: Com a perspectiva de inadimplência em alta e Selic mantida em 13,50%, linhas de crédito livre (como cartão parcelado ou empréstimo pessoal) continuarão cobrando juros proibitivos.
- Aposte nas Linhas Direcionadas: Se precisar investir no seu negócio ou adquirir imóveis, priorize linhas de crédito direcionado, que contarão com maior oferta e taxas balizadas.
- Renda Fixa Segue Reเกadora: Para o investidor, a confirmação de que os cortes expressivos de juros só voltam em março de 2027 garante mais alguns meses de rentabilidade de dois dígitos em títulos pós-fixados.
No final das contas, os bancos estão avisando que o remédio dos juros altos vai demorar um pouco mais para fazer efeito na inflação, exigindo paciência do consumidor e pulso firme na gestão do orçamento até 2027.



