Sabe quando o vencedor de uma das disputas eleitorais mais apertadas e acirradas da história recente sobe no trio elétrico na Avenida Paulista, lava a alma com a militância e, em vez de focar apenas no discurso tradicional de posse, decide colocar na mira as Big Techs mundiais, os algoritmos e a soberania digital?
Pois bem, um dia após ser reeleito para o seu quarto mandato presidencial no segundo turno do último domingo (25 de outubro de 2026) — superando o senador Flávio Bolsonaro (PL) na contagem de votos —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou o palanque na Paulista para ditar as prioridades tecnológicas do seu novo governo.
Diante de uma multidão de apoiadores, Lula mandou um recado direto ao Vale do Silício e a Pequim ao defender a criação de uma Inteligência Artificial 100% brasileira e cobrar a regulação urgente das grandes plataformas digitais. “Iremos ensinar mais matemática e engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana. Eu quero criar uma brasileira”, disparou o presidente reeleito.
Onde o filho chora e a mãe não vê
Em bom português, o incômodo do Planalto com os gigantes da tecnologia tem nome, sobrenome e endereço corporativo: a controvérsia envolvendo a Meta e as alegações de interferência no pleito eleitoral.
Sabe quando a discussão sobre o algoritmo das redes sociais ultrapassa os debates acadêmicos e vira caso de Polícia Federal e Justiça Eleitoral na semana decisiva do voto?
- O Fim de Semana do Fogo Cruzado: Tanto a campanha do PT quanto a oposição (liderada por nomes como o deputado Nikolas Ferreira) acusaram a Meta de manipulação de métricas e travamento de conteúdos nas redes. O ápice do desgaste ocorreu nos últimos dias antes do pleito, quando a própria Meta admitiu “falhas recorrentes” na moderação, acionando o alarme no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
- “Chega de Pagar Zero Imposto”: Lula subiu o tom contra o poder econômico do setor: “Não podemos ter empresas monstruosas de grande ganhando milhões e bilhões, não pagando imposto, e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país”.
- LLM Verde e Amarelo: O plano de governo reeleito prevê o desenvolvimento de um Grande Modelo de Linguagem (LLM) nativo em português, alimentado por uma plataforma de dados nacional e operado por supercomputadores em instituições públicas e universidades brasileiras.
A matemática do pão de queijo
Se você quer entender os pilares do plano de soberania digital e infraestrutura de IA que o governo pretende acelerar a partir de 2027, acompanhe o raio-X da proposta:
| Eixo de Soberania Digital | Proposta e Ações do Novo Governo |
|---|---|
| Matriz Energética e Data Centers | Usar o potencial de energia 100% renovável do Brasil para atrair megadata centers internacionais, exigindo em troca o armazenamento local dos dados brasileiros. |
| Modelo de Linguagem (LLM) | Criação de um LLM público em português, voltado para soluções de políticas públicas e treinado com dados nacionais. |
| Infraestrutura Crítica | Expansão de supercomputadores operados por universidades e centros de pesquisa públicos com salvaguardas socioambientais. |
| Regulação das Big Techs | Submissão das redes sociais, plataformas digitais e sites de apostas/jogos às leis tributárias e cíveis do país. |
O pulo do gato (ou o pulo do data center limpo)
A grande sacada estratégica da equipe de transição de Lula para negociar com a indústria global de tecnologia é colocar a matriz de energia limpa do Brasil na mesa como moeda de troca.
A corrida global pela Inteligência Artificial e a construção de data centers de última geração exigem volumes absurdos de energia elétrica e água para resfriamento. Como os EUA e a Europa enfrentam gargalos severos de rede e transição energética, o Brasil desponta como o destino perfeito para os “data centers verdes”.
O “pulo do gato” de Lula é impor condicionantes a esse apetite estrangeiro: as Big Techs poderão até instalar seus data centers gigantescos aproveitando a energia solar e eólica do Nordeste brasileiro, mas terão que armazenar os dados do cidadão brasileiro no país e pagar tributos pela operação em solo nacional.
Por que você deve se importar
Para o mercado de tecnologia, startups locais e milhões de usuários de redes sociais, a reeleição de Lula sinaliza um cerco regulatório inevitável sobre o ecossistema digital a partir de 2027.
O avanço da pauta de regulação das redes sociais e a cobrança de impostos sobre faturamento das Big Techs em solo brasileiro mudarão as regras do jogo do marketing digital, da moderação de conteúdo e dos investimentos em IA no país.
No final das contas, o recado que saiu do palanque da Paulista é cristalino: o Brasil do novo mandato de Lula quer deixar de ser apenas um mero consumidor de algoritmos importados para tentar ser dono da sua própria fábrica de Inteligência Artificial.




