ECONOMIA

Alckmin diz que subir juros não vai baixar o petróleo

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O vice-presidente Geraldo Alckmin aproveitou uma visita a uma concessionária da Scania no entorno de Brasília neste sábado (14) para mandar um recado ao Banco Central: não culpem a guerra para manter os juros altos.

“Não adianta aumentar juros que não vai cair o preço do petróleo”, disse Alckmin, às vésperas da reunião do Copom na próxima quarta-feira.

O mercado financeiro espera uma redução da Selic na reunião. Alckmin claramente também.

O argumento

A lógica de Alckmin é a seguinte: a alta do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio é um choque externo — algo que acontece fora do Brasil e que a política monetária brasileira não tem como resolver.

Subir os juros no Brasil não vai fazer o Irã parar de atacar navios no Estreito de Ormuz. Não vai fazer o barril de petróleo cair. Não vai chover mais no Nordeste.

O próprio Federal Reserve americano — o banco central mais observado do mundo — usa essa lógica na prática: exclui energia e alimentos dos seus cálculos de inflação “núcleo” justamente porque são voláteis e não respondem a juros.

Alckmin citou exatamente esse exemplo. “O Federal Reserve exclui do seu cálculo sobre os juros a agricultura e o petróleo porque os juros não vão contribuir para a redução da commodity ou para que chova mais.”

É um argumento economicamente sólido. E também é conveniente para o governo, que há meses pressiona pelo corte de juros.

O contexto dos juros brasileiros

A Selic está em 15% ao ano — o nível mais alto em quase duas décadas.

Alckmin não deixou passar a oportunidade de contextualizar: “Se você comparar com o mundo inteiro, ela está entre as duas maiores do mundo.”

É verdade. O Brasil tem uma das taxas de juros reais mais altas do planeta. Crédito caro, investimento travado, consumo pressionado. O governo repete esse argumento há tempo — e não está errado nos fatos, mesmo que tenha interesse óbvio no resultado.

O problema é que o Banco Central tem sua própria leitura. E o BC tem visto pressões inflacionárias que vão além do petróleo: câmbio depreciado, mercado de trabalho aquecido, expectativas de inflação desancoradas.

Para o Copom, cortar juros agora — com o petróleo em alta, o dólar pressionado e a guerra no Oriente Médio ainda sem desfecho claro — pode ser interpretar o sinal errado.

O que o governo fez esta semana

Alckmin fez questão de destacar o pacote anunciado na quinta-feira (12): zeragem de PIS e Cofins sobre o diesel e a sinalização de que a Petrobras aderiria ao programa de subsídios antes de reajustar os preços.

“Foram duas decisões importantes. Garantir o abastecimento, não faltar diesel e, de outro lado, agir para reduzir o preço, para evitar um aumento grande do diesel”, disse.

É a linha do governo: fizemos nossa parte no lado fiscal e de preços. Agora o BC que faça a dele no lado dos juros.

O que ele não respondeu

Quando perguntado se podem vir mais medidas para controlar os preços dos combustíveis no Brasil, Alckmin desconversou.

“Torcer para a guerra parar o mais rápido possível, acompanhar o preço do barril do petróleo.”

Torcer é de graça. Mas não é resposta.

O silêncio sugere que o governo ainda está avaliando o que pode fazer — ou que prefere não anunciar nada antes de ver o que o Copom decide na quarta-feira.

O que vem por aí

A reunião do Copom acontece na quarta-feira (18). O mercado precifica uma queda da Selic.

A questão é quanto — e se o BC vai sinalizar que o ciclo de cortes continua ou que a guerra e o petróleo exigem mais cautela.

Se o BC cortar e sinalizar pausa, o governo comemora parcialmente. Se cortar e mantiver o ritmo de cortes, Alckmin vai declarar vitória numa concessionária de caminhões em algum lugar do Brasil.

Se mantiver os juros estáveis citando a guerra como risco, o governo vai reclamar muito — e provavelmente em público.

O recado

Alckmin tem razão que subir juros não derruba o petróleo. Esse argumento é tecnicamente correto.

Mas o BC não está pensando em subir juros. Está pensando em quanto cortar — e se o momento é seguro para fazer isso com o mundo em chamas.

São conversas diferentes. E o vice-presidente sabe disso.

A pressão política sobre o Banco Central é real, constante e não vai diminuir. O BC tem autonomia formal. Mas autonomia não é invisibilidade.

Na quarta-feira, saberemos quem estava certo.

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