(Foto: Reprodução)
O Banco Central decidiu nesta quarta-feira (28) manter a taxa Selic em 15% ao ano. Mas dessa vez veio com um recado diferente: a partir de março, pode começar a cortar.
É a quarta reunião seguida que a Selic fica travada em 15%. E é o maior patamar dos juros em quase 20 anos. A última vez que a taxa esteve tão alta foi em julho de 2006, no primeiro mandato de Lula.
A decisão foi unânime. E já era esperada pelo mercado.
O recado do Copom sobre março
O Comitê de Política Monetária deixou claro no comunicado: se a inflação continuar se comportando como esperado, os cortes começam na próxima reunião.
“O comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião.”
Traduzindo: março deve ter corte. Mas só se a inflação cooperar.
O Copom também avisou que mesmo cortando, os juros vão continuar altos. Porque a inflação ainda não está totalmente controlada.
“Reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.”
Ou seja: vamos cortar, mas devagar. E só enquanto der.
Por que o BC manteve em 15%
A Selic está nesse nível desde o fim de junho. São quatro reuniões travadas.
O Banco Central usa os juros para controlar a inflação. Quando a inflação está alta ou ameaça subir, o BC sobe os juros. Quando a inflação está controlada, o BC pode baixar.
O problema é que a inflação passou seis meses seguidos acima da meta em junho. E o BC teve que explicar por quê.
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, divulgou uma carta pública listando os culpados:
- Atividade econômica aquecida demais
- Câmbio desvalorizado
- Custo da energia elétrica
- Anomalias climáticas (seca, por exemplo)
Tudo isso pressionou os preços. E obrigou o BC a segurar os juros lá em cima.
- Você vai se interessar: SELIC: a taxa que manda na sua vida mais do que a sua mãe quando você era criança
Como funciona o sistema de metas
Desde o início de 2025, o Brasil adotou o sistema de meta contínua. A meta de inflação é 3% ao ano. E é considerada cumprida se a inflação ficar entre 1,5% e 4,5%.
Se a inflação estiver dentro disso, o BC pode baixar os juros. Se estiver acima, o BC mantém ou sobe.
E aqui tem um detalhe importante: o BC olha para o futuro. Ele não toma decisão com base na inflação de hoje. Toma com base nas projeções de inflação para os próximos meses.
Por quê? Porque demora de seis a 18 meses para uma mudança na Selic ter efeito completo na economia.
Então quando o BC decide cortar em março, é porque acredita que a inflação vai estar comportada lá na frente. Não necessariamente agora.
O governo quer juros menores
Desde o ano passado, integrantes do governo defendem que o Banco Central reduza os juros.
A avaliação da área econômica do governo é que juros a 15% estão travando a economia. Empresas não investem. Consumidores não compram. E o crescimento desacelera.
Mas o Banco Central é autônomo. E a prioridade dele é controlar a inflação. Não estimular crescimento.
Então mesmo com pressão política, o Copom manteve a Selic alta até ter certeza de que pode cortar sem arriscar a inflação voltar a subir.
Copom desfalcado
A reunião desta quarta teve dois votos a menos.
Dois diretores saíram: Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro) e Diogo Guillen (Política Econômica).
E o governo ainda não indicou substitutos.
Mesmo assim, a decisão foi unânime entre os sete diretores que participaram.
Vale lembrar: em 2025, os diretores indicados pelo presidente Lula formaram maioria no Copom. Ou seja, a decisão de manter em 15% e sinalizar corte em março foi tomada por uma maioria indicada pelo governo.
O que muda na prática com Selic a 15%
Juros altos afetam tudo.
Para quem tem dívida: fica mais caro. Financiamento de carro, casa, cartão de crédito. Tudo sobe.
Para quem investe: renda fixa fica mais atrativa. CDB, Tesouro Direto, fundos DI. Tudo rende mais.
Para empresas: investir fica mais difícil. Pegar empréstimo para expandir sai caro. Então muitas empresas seguram investimentos.
Para a economia: crescimento desacelera. Menos consumo, menos investimento, menos contratação.
E a população mais pobre é a mais afetada. Porque inflação corrói poder de compra. E juros altos travam o mercado de trabalho.
O que esperar de março
Se a inflação se comportar como o BC espera, março deve trazer o primeiro corte da Selic depois de meses travada em 15%.
Não vai ser um corte grande. Provavelmente algo entre 0,25 e 0,50 ponto percentual.
Mas é um começo. E sinaliza que o BC acredita que a inflação está voltando para o controle.
Agora é esperar. E torcer para o cenário esperado se confirmar.
Porque se a inflação voltar a subir, o BC para tudo. E os juros continuam altos por mais tempo.
Via: G1




