ECONOMIA

BC: tudo indica que o corte de juros está próximo

O Banco Central divulgou nesta terça (3) a ata da última reunião do Copom, que manteve a Selic em 15% ao ano.

E confirmou o que já tinha sinalizado: deve começar a cortar os juros na próxima reunião, em março.

Mas deixou claro que o tamanho do corte vai depender dos próximos dados de inflação, emprego e PIB. E que mesmo cortando, os juros vão continuar altos por um bom tempo.

O que pode frear o corte

A economista Marcela Kawauti, em entrevista ao CNN Money, apontou dois riscos que podem atrapalhar a queda dos juros:

1. Câmbio:
Se o dólar disparar de novo, a inflação sobe junto. E se a inflação sobe, o Banco Central para de cortar.

2. Contas públicas:
Se o governo não conseguir controlar os gastos, a dívida cresce. E isso também pressiona a inflação.

E esse segundo ponto está complicado.

O problema fiscal não melhora

O próprio Banco Central reconhece na ata que as incertezas com as contas públicas podem elevar a taxa de juros neutra da economia.

Isso é técnico, mas significa basicamente: quanto pior as contas públicas, mais alto o BC precisa manter os juros pra controlar a inflação.

E o cenário fiscal não está melhorando.

A dívida cresce. Os gastos públicos aumentam. E o governo não está conseguindo frear isso.

A Câmara aprovou aumento pros servidores do Congresso

Como se não bastasse, a Câmara dos Deputados aprovou nesta terça reajustes e mudanças para servidores do Congresso que permitiriam ganhos acima do teto constitucional.

O teto hoje é de R$ 46 mil. E agora querem pagar mais.

Isso acontece justamente no momento em que todo mundo está falando de controle de gastos. E quando o Banco Central está dizendo que as contas públicas estão atrapalhando a queda dos juros.

Não é exatamente a mensagem que o mercado esperava.

O que a população pensa

Uma pesquisa do movimento Orçamento Bem Gasto mostrou que a percepção da população sobre as contas públicas é bem negativa.

Os números:

  • 55% acreditam que o país gasta muito mais do que pode
  • 20% dizem que gasta um pouco mais
  • 8% entendem que o governo gasta o que pode

Sobre a situação das contas públicas:

  • 29% classificam como péssima
  • 20% classificam como ruim
  • 23% veem como regular
  • 5% acham ótimo

Ou seja: a maioria da população sabe que as contas não estão fechando.

O que isso tem a ver com os juros

Tudo.

Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa se endividar. E quanto mais dívida, mais juros o governo paga.

Isso pressiona a inflação. E quando a inflação sobe, o Banco Central precisa subir os juros pra controlar.

É um ciclo. E um ciclo ruim.

Se o governo não controlar os gastos, o Banco Central não consegue baixar os juros de forma sustentável. Porque sempre que ele corta, a inflação volta a subir por conta do descontrole fiscal.

O que o BC pode fazer em março

Três cenários possíveis:

Cenário 1: Inflação comportada, câmbio estável, contas públicas sem piora. O BC corta 0,5 ponto percentual (de 15% pra 14,5%).

Cenário 2: Inflação sobe um pouco ou câmbio fica instável. O BC corta menos, tipo 0,25 ponto (de 15% pra 14,75%).

Cenário 3: Inflação dispara ou contas públicas pioram muito. O BC não corta nada e mantém em 15%.

O mais provável é o cenário 1 ou 2. Porque o BC já sinalizou que deve cortar. Mas o tamanho do corte vai depender dos dados que vierem até lá.

A tensão entre BC e governo

O Banco Central está dizendo que as contas públicas estão atrapalhando.

O governo está aumentando gastos com servidores do Congresso.

E o mercado está no meio, esperando pra ver quem ganha essa queda de braço.

Se o governo controlar os gastos, o BC pode cortar os juros mais rápido e com mais tranquilidade.

Se o governo continuar gastando, o BC vai ter que segurar os juros altos por mais tempo. Mesmo que isso freie a economia.

O recado da ata

A ata confirmou: março deve ter corte.

Mas também avisou: depende.

Depende da inflação. Depende do câmbio. E principalmente, depende das contas públicas.

E por enquanto, as contas públicas não estão ajudando.

Via: CNN Brasil