O petróleo subiu lá fora. A Petrobras não subiu aqui. E a conta está ficando salgada.
A defasagem do diesel vendido pela estatal nas suas refinarias chegou a 47% no fechamento de quarta-feira (4) — novo recorde, superando os 42% registrados na véspera. Em polos de importação como Paulínia (SP) e Araucária (PR), a diferença chega a 49%: o combustível da Petrobras custa quase a metade do que vale no mercado internacional.
Para piorar, as refinarias privadas já começaram a reajustar. A Petrobras ficou para trás — literalmente e nos preços.
O que é defasagem e por que importa
Defasagem é a diferença entre o preço que a Petrobras cobra nas refinarias e o preço equivalente no mercado internacional.
Quando o petróleo sobe lá fora e a Petrobras não repassa o aumento, a defasagem cresce. Isso significa que a estatal está vendendo combustível abaixo do custo de reposição — ou seja, está subsidiando o preço para o mercado brasileiro.
No curto prazo, parece ótimo para o consumidor. No médio prazo, é um problema para o balanço da empresa. E no longo prazo, desincentiva o investimento em refino e abre espaço para distorções no mercado.
304 dias sem mexer no diesel
A Petrobras está há 304 dias sem reajustar o preço do diesel.
Trezentos e quatro dias. Enquanto isso, o petróleo oscilou, a guerra entre EUA e Irã escalou, o Brent disparou 13% em menos de uma semana — e o diesel nas refinarias da estatal ficou no mesmo lugar.
A gasolina teve um movimento há 38 dias — uma queda de R$ 0,14 o litro. Ou seja, o último ajuste foi pra baixo. Desde então, o mercado internacional foi na direção oposta.
O que as concorrentes fizeram
Enquanto a Petrobras segurava os preços, as refinarias privadas agiram.
A Refinaria de Mataripe, na Bahia, elevou o diesel em R$ 0,28 o litro na quarta-feira. A Refinaria de Manaus (Ream) foi mais agressiva: alta de R$ 0,57 por litro no diesel e R$ 0,35 na gasolina.
Isso cria uma situação incomum: o combustível da Petrobras está mais barato que o das refinarias privadas — não porque a estatal é mais eficiente, mas porque está absorvendo a alta internamente.
Distribuidoras e importadores que compram da Petrobras estão levando vantagem. Quem compra das privadas, não. O mercado começa a se distorcer.
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Quanto falta reajustar
De acordo com a Abicom — Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis — para se equiparar aos preços internacionais, a Petrobras precisaria:
- Elevar o diesel em R$ 1,51 o litro
- Elevar a gasolina em R$ 0,47 o litro
R$ 1,51 no diesel não é um ajuste. É um choque. Mas esse choque existe porque 304 dias de congelamento foram acumulando a pressão.
Quanto mais tempo sem reajuste, maior o ajuste necessário quando ele vier. É a física dos preços represados: a água acumula atrás da barragem. Mais cedo ou mais tarde, algo cede.
Por que o petróleo está subindo
A alta do petróleo que está pressionando a defasagem tem endereço: o conflito entre Estados Unidos e Irã.
Com a escalada militar no Oriente Médio, o mercado passou a precificar o risco de interrupção no fornecimento global — especialmente pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do petróleo transportado por via marítima no mundo.
O Brent acumulou alta de 13% em poucos dias. E cada dólar a mais no barril aumenta o custo de importação dos derivados — e, consequentemente, a defasagem da Petrobras.
A geopolítica chegou ao posto de gasolina. Só que ainda não apareceu no preço.
O dilema da Petrobras
A Petrobras vive um dilema clássico de empresa estatal em período de alta de commodities.
Reajustar os preços é tecnicamente correto — alinha o combustível ao custo real e preserva o caixa da empresa. Mas gera inflação imediata, pressão política e desgaste com o governo, que tem interesse em segurar os preços para não impactar o custo de vida.
Não reajustar alivia a pressão no curto prazo, mas acumula o problema. A defasagem cresce, o balanço deteriora e, quando o reajuste finalmente vem, é maior e mais doloroso.
É o dilema da banda-aid: arrancar devagar dói mais. Mas ninguém gosta de arrancar rápido.
O que vem por aí
Dois cenários possíveis:
Se o petróleo continuar subindo, a defasagem vai aumentar ainda mais. Em algum momento, a pressão sobre o balanço da Petrobras fica insustentável e o reajuste se torna inevitável. Quanto maior a espera, maior o impacto quando vier.
Se o petróleo recuar — por desescalada do conflito no Oriente Médio ou aumento de oferta global — a pressão diminui e a Petrobras pode segurar os preços por mais tempo sem tanto custo.
Por enquanto, o mercado internacional não dá sinais de recuar. E a Petrobras segue na linha de frente absorvendo o choque — com o bolso do acionista e, indiretamente, do contribuinte.
O recado
A defasagem de 47% no diesel não é um número técnico. É um termômetro de uma decisão política: segurar o preço do combustível, independente do que acontece no mercado internacional.
Essa decisão tem custo. Ele está sendo pago agora — silenciosamente, no balanço da Petrobras.
Quando o reajuste vier — e vai vir — o brasileiro vai sentir no bolso o que o barril de petróleo já está fazendo há semanas.
A pergunta não é se vai subir. É quando.
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