Depois de 304 dias sem mexer no preço, a Petrobras finalmente agiu.
A estatal anunciou nesta sexta-feira (13) um reajuste de R$ 0,38 por litro no diesel A vendido para as distribuidoras. O novo preço entra em vigor amanhã, sábado (14).
Na prática, quem abastece num posto vai sentir um aumento de R$ 0,32 por litro no diesel B — que é o combustível que vai para o caminhão e para o ônibus, já misturado com biodiesel.
O que muda no preço
Com o reajuste, o diesel A passa a custar R$ 3,65 por litro nas distribuidoras. A fatia da Petrobras no preço final do diesel B nos postos será de, em média, R$ 3,10 por litro.
Mas tem um detalhe importante: o governo federal zerou o PIS e Cofins sobre o diesel na quinta-feira (12) — um dia antes desse anúncio. Os dois tributos federais somavam uma parte relevante do preço final.
A lógica da operação é essa: a Petrobras sobe o preço na ponta de cima, o governo corta imposto na ponta de baixo. O consumidor, no fim das contas, sente menos do que R$ 0,32 de aumento — ou, dependendo do cálculo, quase nada.
É um jogo de equilíbrio político e econômico. Funciona enquanto o governo conseguir abrir mão da receita tributária.
Por que o reajuste era inevitável
O petróleo Brent saiu de cerca de US$ 70 o barril no fim de fevereiro para aproximadamente US$ 100 o barril agora. Uma alta de quase 43% em poucas semanas, puxada pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.
A Petrobras ficou parada enquanto o mercado disparava. Resultado: no fechamento de quinta-feira, o diesel da estatal estava 72% abaixo da paridade de importação — ou seja, R$ 2,34 por litro mais barato do que custaria importar o produto.
Setenta e dois por cento. Para ter noção do tamanho do problema: é como vender um produto que você compra por R$ 10 a R$ 2,80.
Essa diferença não some. Ela vai para o balanço da Petrobras como prejuízo potencial — e acumula pressão até o ponto em que continuar segurando o preço deixa de ser uma opção.
O que R$ 0,38 resolve
Pouco. Mas é o começo.
O reajuste de R$ 0,38 não fecha a defasagem de R$ 2,34. Reduz, mas não elimina. A Petrobras ainda vai continuar vendendo diesel abaixo do preço de importação — só que a distância fica um pouco menor.
Para fechar completamente a defasagem, o reajuste teria que ser muito maior. E um aumento desse tamanho de uma vez geraria impacto inflacionário imediato — no frete, nos alimentos, no transporte público. Tudo que se move no Brasil usa diesel.
Então a estatal optou pelo caminho de sempre: um ajuste parcial, combinado com subsídio tributário do governo, para tentar equilibrar a pressão sem gerar choque.
O timing não é coincidência
O reajuste vem exatamente um dia depois do governo Lula zerar PIS e Cofins sobre o diesel.
A sequência foi calculada: primeiro o governo anuncia o corte de imposto, criando uma almofada. Depois a Petrobras anuncia o reajuste, sabendo que o impacto no consumidor final será amortecido.
A Petrobras confirmou que vai aderir ao programa de subsídios e citou explicitamente que “o impacto do aumento às distribuidoras será mitigado pela desoneração dos tributos federais.”
É coordenação entre estatal e governo. Pode funcionar no curto prazo. O custo é que o governo abre mão de receita tributária — num momento em que o orçamento já está apertado.
O contexto: quanto tempo sem mexer no preço
O último aumento no preço do diesel para as distribuidoras havia sido em fevereiro de 2025. Antes desse reajuste de hoje, a Petrobras tinha feito apenas uma redução em maio de 2025 — e ficou parada desde então.
Ou seja: meses sem ajuste enquanto o petróleo subia de US$ 70 para US$ 100 o barril. A defasagem foi se acumulando silenciosamente até chegar em 72%.
Esse é o problema de segurar preço por muito tempo: quando o ajuste vem, ele precisa ser maior do que seria se tivesse vindo antes. E ainda assim não fecha tudo de uma vez.
O que vem por aí
A guerra no Oriente Médio não acabou. O petróleo não voltou para US$ 70. E a defasagem não foi zerada com este reajuste.
Se o Brent continuar em torno de US$ 100 ou subir mais, a pressão sobre a Petrobras volta. E o ciclo se repete: defasagem acumula, governo busca alternativa tributária, estatal reajusta parcialmente.
O diesel mais barato nos postos — pelo menos por ora — depende do governo conseguindo manter a isenção de PIS e Cofins. Se a situação fiscal piorar, esse benefício pode não durar.
O recado
A Petrobras reajustou. O governo cortou imposto. No posto, o consumidor vai sentir pouco ou nada por enquanto.
Mas a defasagem ainda existe. O petróleo ainda está caro. E a guerra ainda está acontecendo.
Este reajuste não é o fim do problema. É o primeiro movimento de um ajuste que provavelmente vai acontecer em etapas — enquanto o governo torce para o barril de petróleo voltar a cair antes que a conta fique grande demais para esconder.




