ECONOMIA

Rombo de R$5,1 bi: Quem paga a conta do Will Bank?

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A liquidação da fintech Will Bank, subsidiária do também liquidado Banco Master, trouxe de volta uma discussão que o mercado tenta resolver há mais de dez anos:

Quando um emissor quebra, quem segura o prejuízo dentro do arranjo de pagamentos?

O problema não é pequeno.

Segundo dados do IFData, do Banco Central do Brasil, o rombo estimado é de R$ 5,13 bilhões em valores a receber de transações pós-pagas.

Dinheiro que já foi gasto no cartão.

Dinheiro que os lojistas esperam receber.

Dinheiro que precisa sair de algum lugar.

Como funciona o arranjo

O sistema de cartões é uma engrenagem com várias peças:

• O emissor, que entrega o cartão ao cliente
• A bandeira, que conecta todo mundo
• A credenciadora, dona da maquininha
• O lojista

No caso do Will Bank, a bandeira é a Mastercard.

O fluxo é assim:

O cliente compra hoje.
A credenciadora antecipa o valor ao lojista.
A bandeira recebe o pagamento da fatura do cliente.
Até 30 dias depois, repassa à credenciadora.

Quando o emissor quebra, esse ciclo trava.

E aí começa a disputa.

A posição da Mastercard

A Mastercard tem avisado às credenciadoras que não pretende arcar sozinha com a conta além das garantias que conseguir executar junto ao Will Bank.

Em nota, afirmou que cumpre todas as obrigações legais e regulatórias e que trabalha com o liquidante e o regulador para minimizar impactos.

Tradução: não vai assumir o prejuízo integralmente.

A posição das maquininhas

Empresas como Cielo e Rede, chamadas de credenciadoras, argumentam que o Banco Central já deixou claro em regulações que o risco deve ser assumido pela iniciadora do arranjo.

Ou seja, a bandeira.

O argumento é simples:

• É a bandeira que fecha contrato com o emissor
• É a bandeira que conhece a estrutura da parceria
• A credenciadora não pode escolher não operar com um emissor específico quando aceita a bandeira

Se aceita Mastercard, aceita todos os emissores Mastercard.

Não há botão de veto.

O respaldo legal

Executivos do setor citam principalmente a Lei nº 12.865, de 2013, e normas do Banco Central sobre arranjos de pagamento.

A tese ganhou força após nota divulgada pelo BC em dezembro, dias antes da liquidação do Master.

A leitura predominante entre credenciadoras é que a liquidação das transações autorizadas deve ser garantida dentro do próprio arranjo.

O lojista não pode virar variável de ajuste.

A discussão, portanto, não é se o estabelecimento comercial vai receber.

É como o prejuízo será dividido internamente.

Redistribuição de perdas

Segundo especialistas, em cenários de crise é comum haver tentativa de redistribuição de perdas entre participantes.

Mas redistribuir não significa ter respaldo regulatório para repassar prejuízo.

O centro da disputa está em saber se contratos privados da bandeira podem se sobrepor às regras brasileiras.

E isso não é uma discussão pequena.

O mercado de cartões movimenta trilhões por ano. Confiança é a base. Se lojistas começarem a questionar a segurança do fluxo, o custo sistêmico sobe.

O que está em jogo

Não é só o rombo de R$ 5,13 bilhões.

É a definição de risco dentro do sistema.

Se a bandeira absorve, o custo pode aparecer em tarifas futuras.

Se a credenciadora absorve, o impacto recai sobre quem antecipou pagamentos.

Se o risco não estiver claramente alocado, o sistema inteiro encarece.

A liquidação do Will Bank virou um teste de estresse jurídico.

O arranjo de pagamentos foi criado para que o lojista receba sempre.

Agora o mercado discute quem garante essa promessa quando o emissor desaparece.

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