FINANÇAS

O senador que quer o Brasil comprando Bitcoin

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Um senador foi a uma conferência de criptomoedas e disse o que o setor queria ouvir. Mas também disse o que ninguém esperava: que os próprios investidores são parte do problema.

Jorge Seif participou nesta sexta-feira (28) da Blockchain Conference Brasil e defendeu duas teses centrais: o Brasil precisa de uma reserva soberana de Bitcoin — e quem investe em cripto precisa parar de ignorar o Congresso.

A ideia da reserva soberana

Seif quer que o Brasil trate o Bitcoin como “ouro digital” e o inclua nas reservas estratégicas do país.

A ideia não é nova. El Salvador adotou o Bitcoin como moeda oficial. Estados Unidos, sob Trump, sinalizaram interesse em criar uma reserva nacional de BTC. Alguns países menores já movem nessa direção.

O argumento do senador é simples: nações que entenderem cedo o valor estratégico do Bitcoin levam vantagem. As que esperarem explicação vão comprar mais caro — ou não vão comprar.

“Se não acreditarmos no Bitcoin, vamos ficar para trás mais uma vez”, disse Seif.

O “mais uma vez” não é exagero retórico. O Brasil tem histórico de chegar atrasado em ondas tecnológicas — e de regulamentar o que não entende antes de apoiar o que poderia crescer.

A MP que quase destruiu o mercado

O senador relembrou a Medida Provisória 3303, que ele descreveu como um texto que “quase fulminou o mercado cripto.”

O que a MP propunha, em termos simples:

  • Acabar com a isenção de imposto para quem vende até R$ 35 mil em cripto por mês — um benefício que protegia o pequeno investidor
  • Cobrar 17,5% de imposto sobre qualquer operação, independente do valor
  • Tratar igual quem compra e segura Bitcoin por anos e quem faz dezenas de operações por dia

Para quem não conhece o mercado financeiro: é como cobrar o mesmo imposto de quem tem uma poupança e de quem especula na bolsa todo dia. Os perfis são completamente diferentes — e a tributação deveria refletir isso.

“Enquanto outras nações protegem quem investe no longo prazo, o Brasil queria taxar todo mundo sem exceção”, disse o senador.

A MP foi retirada. Segundo Seif, só saiu porque a pressão da comunidade foi intensa — da Câmara, do Senado e dos próprios investidores. O texto não desapareceu da cabeça de ninguém, mas saiu de pauta.

Por enquanto.

O problema de ser tratado como suspeito

Seif foi direto sobre algo que irrita o setor há anos: a associação automática entre cripto e crime.

Em CPIs recentes no Congresso, conta ele, parlamentares tratavam criptomoeda como sinônimo de lavagem de dinheiro. A primeira pergunta a qualquer pessoa era se ela tinha Bitcoin — como se a resposta afirmativa já fosse indício de algo errado.

“Como se alguém que acredita no ouro digital fosse um criminoso. Isso precisa mudar”, disse.

O problema é real. Existe crime no mercado cripto — como existe em qualquer setor financeiro. Mas o Brasil tem quase 40 milhões de usuários de criptoativos. Tratar esse grupo como suspeito não é política pública. É desinformação com consequências práticas.

O alerta que a plateia não esperava

A parte mais interessante do discurso de Seif não foi sobre o governo. Foi sobre os próprios investidores.

O senador afirmou que quem opera em grandes exchanges brasileiras não pode ignorar o que acontece no Congresso. E foi direto: sem engajamento político, investidores serão empurrados para plataformas estrangeiras.

“Ou vocês se engajam, ou vocês terão de investir fora”, disse.

É um aviso que soa estranho vindo de um defensor do livre mercado. Mas faz sentido: se o ambiente regulatório brasileiro ficar hostil demais, as plataformas e os usuários migram para outros países. O capital sai. A receita fiscal some. E o Brasil fica com a regulação — sem o mercado que ela pretendia regular.

A vitória contra a MP 3303 mostrou que pressão organizada funciona. Mas Seif deixou claro que isso precisa ser um hábito, não uma exceção.

O contexto maior

O Brasil criou ou ampliou mais de 40 impostos nos últimos três anos, segundo o senador. Nesse ambiente, qualquer novo setor que mostre potencial vira alvo antes de virar oportunidade.

O mercado cripto não é diferente. Com quase 40 milhões de usuários e crescimento consistente, ele se tornou grande o suficiente para aparecer no radar fiscal — mas ainda não tem representação política proporcional ao seu tamanho.

Essa assimetria é o problema central. O Congresso regula o que não entende, taxando sem critério. E o setor, até recentemente, preferia reclamar nas redes sociais a aparecer em audiências públicas.

O que vem por aí

A MP 3303 saiu de pauta, mas o debate tributário sobre criptoativos não acabou. A pressão por receita fiscal continua. E o setor vai precisar continuar mobilizado para evitar que versões revisadas do mesmo texto voltem pela porta dos fundos.

A proposta de reserva soberana de Bitcoin ainda é embrionária no Brasil — mais discurso do que projeto concreto. Para virar realidade, precisaria de apoio do Executivo, do Banco Central e de uma mudança de visão que vai muito além de um painel de conferência.

Mas o fato de um senador defender publicamente a ideia já é diferente do que era há dois anos.

O recado

O Brasil tem quase 40 milhões de pessoas investindo em cripto. Tem infraestrutura, tem usuários, tem potencial.

O que falta é tratamento de setor estratégico — não de submundo suspeito.

Seif terminou com uma frase que resume bem o tom do evento: “Sobretaxar o mercado cripto seria matar a galinha dos ovos de ouro.”

A galinha ainda está viva. Mas já ouviu barulho de machado algumas vezes.

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