O mercado está turbulento. Tarifas de Trump, impasse político no Brasil, Selic a 15% ao ano — o maior nível em quase duas décadas.
Gestores de fundos e private banking de Bradesco, Itaú e BlackRock ouvidos pelo g1 já ajustaram suas estratégias. E deixaram pistas valiosas para quem quer proteger patrimônio e ainda buscar rentabilidade.
Vamos direto ao que importa.
Os três ruídos de curto prazo
1. Tarifaço de Trump
Trump mandou cartas para mais de 20 países, indicando tarifas mínimas para continuar negociando com os EUA. A maioria varia entre 20% e 40%.
Para o Brasil? 50%, com vigência a partir de 1º de agosto.
E não foi por déficit comercial ou fentanil. Foi política pura. Trump deixou claro que a tarifa é uma retaliação ao que está sendo feito com Bolsonaro no Brasil.
O impacto? Incerteza em empresas e consumidores americanos. Pressão sobre inflação nos EUA. Possível alta de juros pelo Federal Reserve. E se os juros sobem lá, o dólar se fortalece globalmente, pressionando câmbio e inflação em países emergentes — incluindo o Brasil.
2. Impasse do IOF
O governo tentou aumentar o IOF no fim de maio para cumprir a meta fiscal. O Congresso derrubou. Moraes suspendeu tudo, convocou audiência de conciliação, que terminou sem acordo. Depois, retomou parte do decreto.
No fim das contas, o governo conseguiu um sopro favorável. Mas o mercado segue cético sobre a capacidade de cumprir a meta fiscal e preocupado com a instabilidade política.
3. Selic a 15%
O Banco Central elevou a Selic para 15% ao ano — o maior patamar em quase 20 anos.
Isso torna a renda fixa extremamente atrativa. Mas também pode frear o consumo, desacelerar a economia e pressionar empresas com dívida alta.
Como gestores estão driblando os riscos
A recomendação é unânime: ignore o ruído de curto prazo.
Carlos Machado, estrategista-chefe do Bradesco Global Private Bank, é direto: “O principal desafio é ajudar o cliente a se desvincular dos ruídos de curto prazo, que podem prejudicar seu patrimônio.”
Ele usa o petróleo como exemplo. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o preço disparou. Todo mundo achou que ia continuar subindo. Mas não foi um choque persistente. Depois de um tempo, as coisas voltaram aos trilhos.
A lição? Nem todo evento que parece enorme no momento tem impacto duradouro.
Para separar o ruído do que realmente importa, o investidor precisa se manter informado e acompanhar cenários econômicos no Brasil e no exterior.
Victor Natal, estrategista do Itaú BBA, resume: “Investir é algo de longo prazo. O mais importante é preservar o capital, pois isso garante o poder de compra. O mercado financeiro não serve para multiplicar riqueza, mas para mantê-la.”
Como escolher bons investimentos
Natal explica que dois fatores devem guiar a escolha: micro e macro.
Aspectos microeconômicos dizem respeito ao ativo em si e ao setor onde ele está. Isso vale para ações, debêntures, fundos imobiliários, fundos de ações.
“Para saber o rumo de uma ação, é preciso entender o rumo da empresa. As métricas operacionais e financeiras variam conforme o setor.”
Os principais indicadores: receita, crescimento de vendas, geração de caixa, nível de endividamento.
Aspectos macroeconômicos dizem respeito ao ambiente econômico amplo e afetam todos os investimentos.
“No macro, os principais indicadores são inflação, juros, PIB e câmbio. No cenário internacional, relações exteriores ganham peso. No Brasil, a política fiscal é essencial.”
A convergência entre micro e macro é o ponto ideal. É quando o analista identifica quais empresas são favorecidas ou prejudicadas pelo cenário atual.
Onde estão as oportunidades agora
Renda fixa está atrativa
Com Selic a 15%, tanto ativos pós-fixados (atrelados à taxa) quanto pré-fixados (com retorno definido no momento da aplicação) estão pagando bem.
Para quem busca proteção e rentabilidade sem volatilidade excessiva, renda fixa está no melhor momento em quase duas décadas.
Renda variável: setores que lideram transformações globais
Cristiano Castro, diretor de negócios da BlackRock, aponta cinco setores com maior potencial de valorização:
- Inteligência artificial
- Energia
- Semicondutores
- Criptoativos
- Biotecnologia
Esses são os setores que estão liderando mudanças estruturais na economia global. E quando há transformação real, há oportunidade de ganho.
O recado dos gestores
Volatilidade não é exceção. É regra. Quem investe precisa entender que eventos de curto prazo vão acontecer sempre.
A diferença entre quem ganha e quem perde não está em prever o futuro. Está em manter o foco no longo prazo, diversificar e não tomar decisões emocionais no meio do caos.
Como Natal resume: “O mercado financeiro não serve para multiplicar riqueza, mas para mantê-la.”
E manter riqueza, em tempos turbulentos, já é vitória.




