INTERNACIONAL

A guerra no Oriente Médio chegou ao posto de gasolina do mundo todo

image

O petróleo subiu. As bolsas caíram. E governos de vários países acordaram na segunda-feira (9) com o mesmo problema: como explicar pro cidadão que o combustível vai ficar mais caro por causa de uma guerra do outro lado do mundo.

A resposta de cada um diz muito sobre o estado da economia local — e sobre o desespero de alguns.

Por que o mundo todo está em alerta

O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã ameaça o Estreito de Ormuz — a passagem por onde transita cerca de um terço de todo o petróleo transportado por mar no mundo.

Se o estreito fechar ou tiver a navegação dificultada, a oferta global de petróleo cai. E quando a oferta cai, o preço sobe. Simples assim.

O problema é que “preço do petróleo sobe” não fica só no noticiário econômico. Ele aparece no preço da gasolina, no frete de caminhão, no custo de produção industrial, na conta de luz. É um efeito dominó que começa no Golfo Pérsico e termina na padaria da esquina.

Cada país está reagindo de um jeito. Alguns com elegância. Outros, na base do improviso.

Coreia do Sul: teto de preço pela primeira vez em 30 anos

O presidente sul-coreano Lee Jae Myung anunciou nesta segunda que o país vai estabelecer um teto para os preços dos combustíveis domésticos — o primeiro em quase três décadas.

Além disso, a Coreia do Sul vai buscar fontes de energia fora das rotas que passam pelo Estreito de Ormuz. E um programa de estabilização de mercado de 100 trilhões de wons — cerca de US$ 67 bilhões — pode ser expandido se necessário.

É um país rico, organizado e com reservas. Ainda assim, precisou tirar do baú uma ferramenta que não usava desde os anos 90. Isso diz muito sobre o tamanho do problema.

Japão: reserva estratégica em standby

O Japão instruiu seus depósitos de reserva nacional de petróleo a se preparar para uma possível liberação de petróleo bruto.

A informação veio de um parlamentar da oposição — o governo ainda não confirmou detalhes sobre quando e quanto seria liberado.

O Japão não produz petróleo. Importa quase tudo. Tem reservas estratégicas justamente para situações como essa — e agora está colocando elas de prontidão.

É o país mais preparado para crises de energia do mundo. O fato de estar ativando protocolos de emergência não é pânico. É precaução profissional.

Vietnã: zerar tarifa de importação de combustível

O Vietnã vai remover as tarifas de importação de combustíveis para garantir o abastecimento. A medida deve durar até o final de abril.

A lógica é direta: se o combustível vai ficar mais caro lá fora, pelo menos tira o imposto na entrada para amortecer o impacto aqui dentro.

É uma solução rápida, barata para o governo e que resolve o curto prazo. O lado ruim: abre mão de receita tributária num momento em que o orçamento já está pressionado.

Indonésia: mais subsídio e mistura de biodiesel

A Indonésia vai aumentar o valor destinado a subsídios de combustível no orçamento. O país já gasta 381,3 trilhões de rupias — cerca de US$ 22,5 bilhões — para manter preços de combustível e energia acessíveis à população.

Mas tem uma carta na manga que poucos países têm: a Indonésia é a maior produtora de óleo de palma do mundo. E está considerando relançar o B50 — uma mistura de 50% de biodiesel feito de óleo de palma com 50% de diesel convencional.

Na prática: trocar metade do diesel importado por um produto que o país já fabrica em abundância. É a diversificação energética feita com o que se tem em casa.

China: segurar o combustível dentro de casa

A China pediu às refinarias que suspendam a assinatura de novos contratos de exportação de combustível — e que tentem cancelar os que já estão comprometidos.

A exceção: combustível de aviação para voos internacionais, abastecimento de navios e suprimentos para Hong Kong e Macau seguem normais.

A mensagem é clara: o combustível produzido na China fica na China. Numa situação de crise global de energia, cada país olha primeiro para o próprio umbigo — e a China não é diferente.

O efeito colateral: menos combustível chinês no mercado internacional significa menos oferta global. O que pode pressionar ainda mais os preços.

Bangladesh: fechou as universidades

Bangladesh vai fechar todas as universidades a partir desta segunda-feira (9), antecipando os feriados do Eid al-Fitr como medida emergencial para economizar eletricidade e combustível.

Na sexta-feira passada, o país já havia imposto limites diários às vendas de combustível.

Bangladesh importa 95% de tudo que consome em energia. Não tem reserva estratégica, não tem petróleo próprio, não tem biodiesel de palma. Tem uma população de 170 milhões de pessoas e uma conta de energia que cresce toda vez que o barril sobe.

Fechar universidades para economizar luz é o tipo de medida que só faz sentido quando as opções acabaram.

O que isso tudo significa

Cada país está reagendo com as ferramentas que tem. Os ricos usam reservas e subsídios. Os organizados ativam protocolos de emergência. Os criativos misturam biodiesel. Os que não têm opção fecham o que podem fechar.

O que está claro é que o choque está chegando — e chegando rápido. Em menos de uma semana, países que raramente usam mecanismos de emergência energética os colocaram em marcha.

O que vem por aí

Tudo depende do que acontece no Estreito de Ormuz.

Se o tráfego se normalizar e a tensão militar diminuir, parte da pressão some. Os preços recuam, os governos guardam as ferramentas de emergência e a vida segue.

Se a situação escalar — bloqueio, ataque a infraestrutura, confronto naval — o impacto se aprofunda. E medidas como as que estamos vendo esta semana viram o novo normal, não a exceção.

O recado

O que está acontecendo esta semana é um teste de estresse para a economia global.

Um conflito num ponto específico do mapa — o Golfo Pérsico — é capaz de fechar universidades no Bangladesh, acionar reservas estratégicas no Japão e ressuscitar teto de preços na Coreia do Sul que não era usado desde os anos 90.

Isso não é coincidência. É a prova de que o mundo ainda é profundamente dependente do petróleo que passa por um estreito de 40 quilômetros de largura.

E enquanto essa dependência existir, uma guerra lá vai sempre custar algo aqui.

Fonte