A Argentina registrou sua primeira retração mensal em 2025. E não foi pequena.
A atividade econômica contraiu 0,3% em novembro em comparação com o mesmo mês de 2024, segundo o EMAE — indicador mensal de atividade econômica divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística.
O número ficou bem abaixo do esperado. Analistas consultados pela Reuters previam crescimento de 1,7%. O resultado de outubro havia sido de 3,2%.
É uma freada brusca. E cinco dos principais setores da economia estão no vermelho.
Quais setores puxaram a queda
A retração foi liderada por:
- Pesca: queda de 25%
- Indústria de transformação: recuo de 8,2%
- Comércio atacadista e varejista: queda de 6,4%
- Construção civil: retração de 2,3%
Pesca é um setor menor na economia argentina, mas a queda de 25% chama atenção. Indústria e comércio, por outro lado, são pilares — e ambos recuaram forte.
Construção civil continua patinando, sinal de que o investimento privado ainda não reagiu com força às reformas de Milei.
Por que isso aconteceu
Desde que assumiu no final de 2023, Javier Milei aplicou um choque de ajuste fiscal. Cortou gastos públicos, desvalorizou o peso, liberou preços controlados e atacou o déficit.
O resultado foi uma recessão profunda em 2024. O país encolheu. Mas a inflação despencou de um pico de quase 290% para níveis bem mais controlados.
Agora, em 2025, a economia começou a dar sinais de recuperação. O PIB do terceiro trimestre cresceu 3,3%. Analistas previam que o último trimestre fechasse com 3,5% de expansão.
Mas novembro mostrou que a recuperação não é linear. Tem solavancos. E os setores mais sensíveis ao consumo — comércio, indústria, construção — ainda sofrem.
O otimismo de Milei (e dos analistas)
Os dados saíram horas depois de Milei discursar no Fórum Econômico Mundial em Davos, onde atacou governos socialistas e defendeu desregulamentação total do mercado.
O tom do presidente argentino foi de confiança. E ele não está sozinho.
A consultoria Orlando Ferreres and Associates, que havia projetado crescimento de 1,6% para novembro (e errou), continua otimista: “Apesar dos dados decepcionantes de novembro, a perspectiva para 2026 é positiva.”
A aposta é que os efeitos do ajuste fiscal começam a aparecer agora. Inflação controlada permite que salários reais se recuperem. Empresas voltam a investir. Exportações seguem fortes.
Mas a contração de novembro joga água fria nesse otimismo. Pelo menos por enquanto.
O problema do timing
Milei está fazendo uma aposta arriscada: apertar forte no curto prazo para colher resultados no médio e longo prazo.
O ajuste fiscal funcionou para controlar a inflação. Isso é inegável. Mas a economia real — emprego, consumo, investimento — demora mais para reagir.
E enquanto isso não acontece, os setores produtivos sofrem. Indústria recuando 8,2% não é ruído estatístico. É dor real.
A questão é: quanto tempo a população aguenta antes de cobrar resultados? E quanto tempo o próprio Milei tem antes que a pressão política aumente?
O que vem por aí
Se o quarto trimestre fechar com crescimento de 3,5% como previsto, a narrativa de recuperação se sustenta. Novembro vira só um soluço no caminho.
Mas se dezembro e janeiro trouxerem mais contrações, o otimismo de Milei e dos analistas vai precisar ser revisto.
Por enquanto, a Argentina está em um limbo desconfortável: saiu da hiperinflação, mas ainda não entrou em crescimento sustentável.
E Milei, em Davos, continua vendendo a ideia de que o pior já passou. Os dados de novembro sugerem que talvez seja cedo demais para essa conclusão.
Via: CNN Brasil




