Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, foi direta nesta quinta-feira (9): a guerra no Oriente Médio vai deixar marcas que duram anos — independente do que aconteça nas negociações de paz.
“Mesmo na melhor das hipóteses, não haverá um retorno puro e simples ao status quo ante.”
É a frase mais importante que qualquer autoridade econômica global disse sobre o conflito até agora.
O que o cessar-fogo não resolve
Trump anunciou na terça-feira um cessar-fogo de duas semanas com o Irã. O mercado respirou. Mas Georgieva estava explicando por que o alívio é limitado.
O complexo Ras Laffan, no Catar — que produz 93% do GNL do Golfo Pérsico — está fechado desde 2 de março. Para voltar à capacidade total: de três a cinco anos.
Não é questão de assinar um acordo de paz. É questão de reconstruir infraestrutura industrial danificada. Isso leva tempo. E enquanto Ras Laffan não volta, o mundo tem menos gás natural liquefeito disponível.
O mesmo vale para refinarias de petróleo danificadas, para rotas aéreas interrompidas, para cadeias de fornecimento que foram redesenhadas às pressas e que não se reorganizam do dia para a noite.
“O que sabemos é que o crescimento será mais lento, mesmo que a nova paz seja duradoura”, disse Georgieva.
Os números que definem o choque
- 13% de corte no fluxo diário de petróleo global
- 20% de corte no fluxo diário de gás natural liquefeito
- 45 milhões de pessoas adicionais em situação de insegurança alimentar — elevando o total global para mais de 360 milhões
Treze por cento do petróleo mundial é um número enorme. Para ter referência: o embargo árabe de 1973 — que causou a maior crise de energia do século XX — reduziu a oferta global em cerca de 7%. O corte atual é quase o dobro disso.
O que mais vai faltar
Além do petróleo e do gás, o conflito está gerando escassez de insumos industriais que poucos antecipavam.
Enxofre: usado em fertilizantes, processamento de alimentos e produção química. A região do Golfo é produtora relevante.
Hélio: essencial para a fabricação de chips semicondutores. A interrupção afeta diretamente a cadeia de produção de processadores — num momento em que o mundo já está em corrida por chips de IA.
Nafta: matéria-prima para plásticos. Sem nafta, a produção de embalagens, componentes industriais e materiais de construção é afetada.
São interrupções que se espalham pela economia global de formas que não aparecem imediatamente nos preços do petróleo, mas chegam lá — com defasagem de semanas ou meses.
O impacto no crescimento global
Em janeiro, o FMI projetava crescimento global de 3,3% em 2026 e 3,2% em 2027.
Esses números vão ser revisados para baixo na próxima semana, quando o Fundo divulgar o relatório Perspectiva Econômica Mundial.
Georgieva adiantou que o relatório vai apresentar cenários — desde uma normalização relativamente rápida até um cenário em que os preços de energia “permanecerão muito mais altos por muito mais tempo.”
Mesmo o cenário mais otimista, segundo ela, envolve crescimento menor por conta dos danos à infraestrutura, das interrupções no fornecimento e da perda de confiança de investidores e consumidores.
O pedido de dinheiro que está chegando
A guerra vai aumentar a demanda por apoio financeiro do FMI em US$ 20 bilhões a US$ 50 bilhões no curto prazo.
São países que estão sendo afetados pela crise — que precisam de crédito de emergência para sustentar suas moedas, financiar importações de energia mais caras ou cobrir déficits que a guerra ampliou.
Cinquenta bilhões de dólares em pedidos adicionais é um número significativo para o FMI — que precisa garantir que tem capacidade de responder sem comprometer o suporte a outros países em dificuldade.
O que o Banco Mundial está vendo
As declarações de Georgieva vieram em preparação para as reuniões do FMI e do Banco Mundial na próxima semana — um dos encontros mais importantes do calendário econômico global.
O contexto é diferente de qualquer reunião anterior dos últimos anos: uma guerra ativa em região produtora de energia, cessar-fogo frágil, infraestrutura danificada com prazo de recuperação de anos, e incerteza sobre o que acontece com o Estreito de Ormuz.
“O fato é que não sabemos realmente o que o futuro reserva para a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz”, disse Georgieva — e é raro que a chefe do FMI diga publicamente que não sabe.
O recado
A guerra no Oriente Médio entrou na sua sexta semana. O cessar-fogo de duas semanas anunciado por Trump existe no papel — mas Israel continua bombardeando o Líbano, o que ameaça as negociações.
Mesmo que a paz venha, o complexo de Ras Laffan vai levar três a cinco anos para voltar ao normal. O petróleo cortado não volta na semana seguinte. As cadeias de fornecimento não se reorganizam com um comunicado.
A diretora do FMI está dizendo, em linguagem diplomática, o que os mercados já começaram a precificar: esse choque veio para ficar.
Crescimento mais lento. Energia mais cara. Mais pessoas com fome. E a conta chegando ao FMI na forma de pedidos de socorro de US$ 20 a US$ 50 bilhões.
A guerra está na sexta semana. Os efeitos, segundo o FMI, vão durar muito mais.
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