INTERNACIONAL

EUA tem interesse nos minerais da Venezuela e no petróleo

Donald Trump afirma que as empresas dos EUA agora terão acesso às vastas reservas de petróleo da Venezuela. Mas o petróleo é só a ponta do iceberg. Outras commodities do país também chamaram a atenção do governo americano — e não é à toa.

Especialistas afirmam que a Venezuela possui quantidades não verificadas de minerais, metais e, potencialmente, elementos de terras raras. Essas matérias-primas são indispensáveis para diversos setores, da defesa à tecnologia, e o governo americano tem reiteradamente enfatizado sua importância para a segurança nacional dos Estados Unidos.

Mas (sempre tem um “mas”), embora Washington possa aspirar a garantir o fornecimento desses elementos críticos da Venezuela, é uma tarefa árdua, dizem os especialistas. E não contribuiria muito para fortalecer a cadeia de suprimentos dos EUA.

Por quê? Bom, vamos aos detalhes.

O problema: ninguém sabe ao certo o que tem lá

A quantidade e a viabilidade econômica dos recursos minerais da Venezuela são incertas. As empresas também enfrentam grandes riscos ao explorar minerais no país sem garantias de segurança consistentes.

Segundo especialistas, muitas dessas regiões contam com guerrilheiros e grupos armados envolvidos em mineração ilegal de ouro. A extração de terras raras, que consome muita energia, também pode prejudicar o meio ambiente.

“Há uma consciência dentro da administração de que, mesmo além do petróleo, existe um valor mais amplo em recursos naturais no país”, disse Reed Blakemore, diretor de pesquisa do Centro de Energia Global do Atlantic Council.

“No entanto, se estivermos falando das condições sob as quais somos capazes de explorar esses recursos minerais e levá-los ao mercado, a história é muito mais complexa”, disse Blakemore. “E, francamente, até mais complexa do que a história do petróleo.”

Traduzindo: mesmo que os EUA consigam tirar os minerais do chão venezuelano, isso não resolve o problema. Porque tem um detalhe crucial no meio do caminho.

O papel da China: quem manda no refino (spoiler: não são os EUA)

Aqui é onde a história fica complicada (e geopoliticamente tensa). Mesmo que empresas americanas tentassem explorar as terras raras da Venezuela, extraí-las do solo é apenas uma parte do processo. Esses materiais geralmente são enviados para a China para serem refinados.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a China foi responsável por mais de 90% do refino global de terras raras em 2024.

O país mantém um monopólio virtual no processamento e refino desses materiais devido a décadas de subsídios governamentais, expansão da indústria e regulamentações ambientais frouxas (leia-se: bem frouxas mesmo).

As terras raras se tornaram um dos principais pontos de atrito nas tensões comerciais entre os EUA e a China. No ano passado, Pequim implementou alguns controles de exportação sobre terras raras durante as disputas comerciais, aumentando as preocupações sobre a falta de cadeias de suprimentos seguras para esses materiais essenciais nos Estados Unidos.

“A China ainda detém uma capacidade quase única de processar metais de terras raras, e essa vantagem industrial e geopolítica não pode ser superada da noite para o dia”, disse Joel Dodge, diretor de política industrial e segurança econômica do Vanderbilt Policy Accelerator.

Ou seja: os EUA podem até extrair minerais da Venezuela, mas precisariam da China pra transformá-los em algo útil. E isso, convenhamos, não é exatamente ideal quando você tá tentando reduzir sua dependência da China.

Minerais críticos: o que são e por que são tão importantes?

O Serviço Geológico dos Estados Unidos designa 60 “minerais cticos” vitais para a segurança econômica e nacional.

Esses minerais críticos incluem uma mistura de elementos, como:

  • Alumínio
  • Cobalto
  • Cobre
  • Chumbo
  • Níquel

A lista também inclui 15 elementos de terras raras, como cério, disprósio, neodímio e samário. Terras raras se referem a uma categoria de 17 elementos metálicos específicos.

Essas matérias-primas são insumos essenciais em tecnologias do dia a dia, como telefones, baterias e telas de TV, bem como em equipamentos militares e de defesa, como lasers, caças e mísseis.

O termo “terras raras” é meio enganoso, já que esses elementos são relativamente abundantes na crosta terrestre, segundo Julie Klinger, geógrafa e professora associada da Universidade de Wisconsin-Madison. Mas extraí-los e refiná-los é a parte difícil.

Nos últimos anos, legisladores americanos têm demonstrado preocupação com a dependência do país em relação às importações desses elementos essenciais. Houve esforços para desenvolver a mineração e o refino de terras raras nos Estados Unidos, mas o cronograma desses projetos pode levar anos, senão décadas.

E na Venezuela? O que realmente tem lá?

Aqui é onde a história fica ainda mais nebulosa. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) não inclui a Venezuela em sua lista de países com elementos de terras raras (a lista inclui países como China, Estados Unidos, Brasil e Groenlândia, entre outros).

Duas décadas e meia de governo dos presidentes Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela criaram uma lacuna de informação sobre a extensão dos recursos do país, dizem especialistas.

Ainda assim, especialistas acreditam que a Venezuela possui depósitos de alguns minerais, como o coltan — do qual se extraem os metais tântalo e nióbio — e a bauxita, que pode conter alumínio e gálio. Tântalo, nióbio, alumínio e gálio são todos considerados minerais críticos pelo USGS.

Em 2009, Chávez exaltou os recursos naturais do país, incluindo o “ouro azul”, apelido dado ao coltan. Naquele ano, Chávez afirmou que uma grande reserva de coltan havia sido descoberta no país, segundo a Reuters.

Em 2016, Maduro estabeleceu o Arco Mineiro do Orinoco, uma faixa de terra na Venezuela designada para exploração e produção mineral. Mas a região tem sido assolada pela mineração ilegal.

O veredicto: improvável que a Venezuela mude o jogo (pelo menos nos próximos 10 anos)

“Embora o país possua grandes depósitos de recursos minerais, ele é prejudicado por uma combinação de dados geológicos deficientes, mão de obra pouco qualificada, crime organizado, falta de investimentos e um ambiente político instável“, disse Sung Choi, analista de metais e mineração da BloombergNEF, em nota.

“Apesar do seu potencial geológico atual, é improvável que a Venezuela desempenhe um papel significativo no setor de minerais críticos, pelo menos na próxima década“, disse Choi.

Via: CNN Brasil