INTERNACIONAL

FMI: tarifas de Trump ameaçam crescimento, mas IA preocupa mais que bolha

Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, falou nesta segunda (19) em Davos. E, como sempre acontece quando o FMI fala, o tom foi diplomático. Mas a mensagem estava clara.

Sobre as tarifas de Trump

Georgieva disse que “ainda é muito cedo” para avaliar o impacto das tensões comerciais provocadas pelas tarifas anunciadas por Donald Trump contra países europeus.

Mas, logo em seguida, completou: “Fizemos todos os tipos de simulações e o que vimos é que se desviarmos as relações comerciais do caminho normal isso pode levar a uma queda no crescimento econômico.”

Traduzindo do diplomatês: guerra comercial vai frear a economia global. A questão não é se vai afetar, é quanto.

A solução, segundo ela, é simples: “O melhor caminho para resolvermos isso é fazer um acordo, o que vale para qualquer lugar no mundo.”

Simples na teoria. Difícil na prática, quando um lado está usando tarifas como arma de pressão geopolítica e o outro está preparando retaliação de US$ 108 bilhões.

O problema não é bolha de IA — é onde o dinheiro não está indo

Georgieva foi questionada sobre os riscos de investimentos em inteligência artificial. E a resposta foi interessante.

Ela disse que os investimentos no setor recompensaram em lucros até agora e que esse fluxo deve continuar. Ou seja, por enquanto, a aposta está pagando.

O problema? Esse dinheiro está saindo de outras áreas.

“Não estamos ainda preocupados com uma bolha da internet”, disse ela, referindo-se à crise do final dos anos 90. “O retorno nos investimentos é o que nos preocupa.”

Traduzindo novamente: o risco não é que o dinheiro em IA vá evaporar como aconteceu na bolha das ponto-com. O risco é que todo o capital está indo para IA, e outras áreas críticas da economia estão ficando sem investimento.

Isso tem nome: custo de oportunidade. E quando trilhões de dólares se concentram em um único setor, o resto da economia sente.

Venezuela: “devastador” — e o FMI está de fora desde 2019

Georgieva foi direta sobre a Venezuela: o que está acontecendo lá é “devastador”.

Economia em colapso. Inflação galopante. Dados não confiáveis. E o FMI não tem nenhuma relação com o país desde 2019.

Mas ela deixou uma porta aberta: “Estamos prontos para nos engajarmos na Venezuela e posso dizer à população venezuelana que espero um progresso por lá em breve.”

Não dá para saber se esse “progresso” significa mudança de governo, reforma econômica ou simplesmente retomada de diálogo. Mas é raro o FMI falar publicamente sobre esperança de mudança em um país sem acesso a dados confiáveis.

Ucrânia: funcional, mas sob pressão

Georgieva visitou Kiev na última semana. E sua avaliação é de que o país está funcional apesar do inverno rigoroso e dos ataques russos ao sistema energético.

Ela criticou as ações militares da Rússia e deixou claro que a Europa entende a segurança da Ucrânia como parte da própria segurança europeia.

“Não vejo a Ucrânia sendo esquecida. Estou confiante em seguir em frente com as reformas”, disse.

Reformas, no caso, significam ajustes econômicos e de governança que a Ucrânia precisa fazer para continuar recebendo apoio financeiro internacional enquanto luta para sobreviver economicamente durante a guerra.

O que Davos está revelando

Os primeiros dias do Fórum Econômico Mundial estão mostrando três tensões principais:

Comércio: As tarifas de Trump estão no centro de quase todas as conversas. E ninguém acredita que vai terminar em acordo fácil.

Inteligência artificial: O dinheiro continua fluindo para IA, mas os custos invisíveis — investimentos que não estão sendo feitos em outras áreas — começam a preocupar.

Geopolítica: Ucrânia, Venezuela, tensões com a China. O mundo está mais fragmentado, e isso afeta comércio, investimentos e crescimento.

Georgieva não disse nada revolucionário. Mas sinalizou o que o FMI está vendo nos bastidores: incerteza crescente, riscos concentrados e poucos acordos à vista.

E quando o FMI começa a fazer simulações sobre “desvios no caminho normal do comércio”, é porque a coisa pode sair dos trilhos mais rápido do que parece.

Via: CNN Brasil