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Guerra do Oriente Médio pode chegar a US$ 200 bi em perdas

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Cinco semanas de conflito. Até US$ 194 bilhões em perdas. Quatro milhões de pessoas empurradas para a pobreza.

É o custo econômico e social que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) projeta para a escalada militar no Oriente Médio, em estudo publicado esta semana.

O número mais impactante: as perdas projetadas superam o crescimento acumulado de toda a região em 2025. Um ano inteiro de progresso econômico pode ser apagado por algumas semanas de guerra.

O tamanho do buraco

O estudo estima que o PIB coletivo da região pode recuar entre 3,7% e 6,0% — o equivalente a uma perda de US$ 120 bilhões a US$ 194 bilhões.

No mercado de trabalho, o impacto pode chegar a 4 pontos percentuais de desemprego — o equivalente a 3,6 milhões de empregos perdidos. Mais do que todos os empregos criados na região em 2025.

E até 4 milhões de pessoas podem cair na pobreza como consequência direta do conflito.

Esses números não são o pior cenário. São o intervalo entre um cenário moderado e um severo — dependendo de quanto tempo o conflito dura e quão profundas ficam as interrupções no comércio e na produção de energia.

Como o conflito transmite o dano

O PNUD usou um modelo econômico para simular cinco cenários, desde uma “interrupção moderada” até uma “perturbação extrema com choque energético”.

Os canais pelos quais o conflito destrói riqueza são três:

Custos comerciais. Quando navios desviam rotas, fretes sobem, seguros encarecem e entregas atrasam, o custo de fazer negócio aumenta para todos — importadores, exportadores, fabricantes. No cenário extremo, os custos comerciais podem aumentar cem vezes. Não é exagero retórico: é o que acontece quando o Estreito de Ormuz fecha de verdade.

Perda de produtividade. Conflito armado interrompe operações, desloca trabalhadores, fecha fábricas e paralisa serviços. Mesmo que temporária, a perda de produção não é recuperada automaticamente quando a guerra para.

Destruição de capital. Infraestrutura destruída — portos, refinarias, redes de energia — leva anos para ser reconstruída. O capital destruído não volta com o cessar-fogo.

Quem paga a conta mais cara

Os impactos não são iguais para todos na região. Duas sub-regiões concentram as maiores perdas:

Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Emirados, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã): estimativa de perda de 5,2% a 8,5% do PIB. São economias altamente dependentes de exportação de hidrocarbonetos — quando a produção e o escoamento de petróleo e gás são afetados, o impacto é direto e imediato.

Levante (Israel, Palestina, Líbano, Síria, Jordânia): perda estimada de 5,2% a 8,7% do PIB. É onde o conflito está mais concentrado fisicamente — e onde a destruição de capital é mais direta.

O Norte da África (Argélia, Egito, Líbia, Marrocos e Tunísia) sofre impactos menores, mas ainda significativos em termos absolutos.

O aumento da pobreza está concentrado no Levante

Das 4 milhões de pessoas que podem cair na pobreza, mais de 75% estão no Levante — entre 2,85 e 3,30 milhões de pessoas só nessa sub-região.

É onde a vulnerabilidade já era maior antes do conflito. Países como Líbano, Síria e Iêmen já carregavam economias fragilizadas, sistemas sociais com pouca capacidade de absorver choques e populações com margens mínimas de resiliência.

Quando o choque chega, converte-se em pobreza com muito mais velocidade do que em economias mais sólidas.

O que o estudo diz sobre o futuro da região

O PNUD não faz apenas o diagnóstico do custo imediato. Aponta para uma fragilidade estrutural mais profunda: economias excessivamente dependentes de hidrocarbonetos, com baixa diversificação, estão inevitavelmente mais expostas quando o conflito ameaça exatamente essa fonte de renda.

“Essa crise soa um alarme para que os países da região reavaliem fundamentalmente suas escolhas estratégicas”, disse Abdallah Al Dardari, diretor regional do PNUD para os Estados Árabes.

A mensagem é clara: enquanto a riqueza da região depender principalmente do petróleo e do gás, qualquer conflito que ameace a produção ou o escoamento dessas commodities vai ter esse efeito devastador. A diversificação econômica deixa de ser aspiração de longo prazo e vira urgência de sobrevivência.

O que isso significa além da região

O impacto da guerra no Oriente Médio não fica no Oriente Médio.

US$ 194 bilhões em perdas numa região que exporta um quinto do petróleo mundial afeta preços globais, rotas de comércio, cadeias de suprimento e inflação em todos os países que dependem dessas rotas — inclusive o Brasil.

O diesel que subiu 20% nos postos brasileiros nas últimas semanas, a inflação que o Focus está revisando para cima, os juros que o BC está custando a cortar — tudo isso tem endereço no mesmo conflito que o PNUD está quantificando.

A guerra no Oriente Médio está na quinta semana. O custo já é enorme — e ainda está crescendo.

O PNUD está documentando em tempo real o que acontece quando economias estruturalmente frágeis enfrentam conflito armado. Os números são grandes o suficiente para soar absurdos, mas pequenos demais perto do custo humano — 4 milhões de pessoas empurradas para a pobreza não é estatística, é gente.

E cada semana que o conflito continua adiciona mais uma camada de destruição que vai levar anos para ser desfeita — se for.

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