A guerra no Oriente Médio está chegando ao posto de gasolina americano. E Trump está prestes a usar uma ferramenta que não é usada há décadas para tentar segurar a conta.
O governo dos Estados Unidos avalia suspender temporariamente a Jones Act — uma lei de mais de cem anos que regula o transporte marítimo dentro do país. O objetivo é garantir que combustível e produtos agrícolas circulem mais livremente entre os portos americanos.
A suspensão de 30 dias poderia ser anunciada ainda nesta quinta-feira (12), segundo fontes ouvidas pela Reuters.
O que é a Jones Act
A Jones Act existe desde 1920. A regra é simples: qualquer mercadoria transportada entre dois portos americanos precisa ir num navio construído nos EUA, com bandeira americana e, em sua maioria, de propriedade americana.
A ideia original era proteger a indústria naval nacional e garantir que o país tivesse capacidade marítima própria em caso de guerra.
O problema: essa exigência limita drasticamente o número de navios disponíveis para transporte doméstico. Menos navios, menos oferta de transporte, custos mais altos.
Suspender a lei por 30 dias permitiria que navios estrangeiros transportassem combustível entre os portos americanos — o que reduziria custos de frete e aceleraria as entregas, especialmente nas regiões que mais dependem de importações: a Costa Oeste e o Nordeste do país.
Por que agora
O preço da gasolina nos EUA bateu US$ 3,60 o galão nesta quinta-feira — o mais alto desde maio de 2024. O diesel chegou a US$ 4,89 o galão, o patamar mais elevado desde dezembro de 2022.
A culpa é do conflito com o Irã. O país está atacando navios petroleiros no Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo do mundo. Com a rota ameaçada, a oferta global se contrai e o preço sobe.
Trump não controla o que acontece no Estreito. Mas controla o que acontece dentro dos EUA. E a Jones Act é uma das poucas alavancas domésticas que ele pode puxar agora.
O problema político
Gasolina cara é o pior inimigo de qualquer presidente americano — e Trump sabe disso melhor do que ninguém.
Os republicanos passaram anos prometendo que suas políticas de energia manteriam o combustível barato para o americano médio. “Drill, baby, drill” era o slogan. A ideia era que produzindo mais petróleo em solo americano, os preços ficariam sob controle.
Só que a guerra mudou o cálculo. Não importa quanto petróleo os EUA produzam domesticamente se o preço global disparou por causa de um conflito que o próprio Trump escalou.
Com as eleições legislativas de meio de mandato em novembro no radar, cada centavo a mais no galão é um problema político concreto. Os democratas já estão preparando o argumento: o governo prometeu energia barata e entregou gasolina cara.
Leia mais: O senador que quer o Brasil comprando Bitcoin
O que a suspensão resolve — e o que não resolve
Ser honesto aqui importa: a isenção da Jones Act não vai resolver o problema.
Patrick De Haan, analista da GasBuddy, empresa especializada em monitoramento de preços de combustíveis, foi direto: a medida não terá grande impacto sobre os preços da gasolina de forma geral. Pode ajudar a desacelerar os aumentos em regiões específicas que dependem mais de importações — mas não vai reverter a alta nacional.
O problema real está no Estreito de Ormuz, não nas regras de navegação doméstica americana. Enquanto o Irã continuar ameaçando a passagem, o preço do petróleo continua pressionado. E nenhuma suspensão de lei centenária resolve isso.
É um analgésico, não um tratamento.
Por que a medida ainda importa
Mesmo sem resolver o problema estrutural, a sinalização importa.
Suspender a Jones Act é politicamente custoso. A lei tem defensores fervorosos — sindicatos de marinheiros, estaleiros americanos, toda uma indústria que existe por causa dessa proteção. Mexer nisso gera atrito.
O fato de Trump estar disposto a suspendê-la, mesmo que por 30 dias, indica o nível de pressão que o governo está sentindo com os preços. Quando uma administração começa a sacrificar proteções que normalmente não toca, é porque o problema ficou grande demais para ignorar.
O que vem por aí
Três pontos para acompanhar:
1. A suspensão é anunciada? A Casa Branca ainda não finalizou a decisão. Se o anúncio sair ainda hoje, o mercado vai observar de perto o impacto real nos custos de frete e no abastecimento da Costa Oeste e do Nordeste.
2. O Irã recua? Essa é a variável que manda em tudo. Se os ataques no Estreito de Ormuz diminuírem, a pressão sobre o petróleo alivia — e a Jones Act volta a ser conversa para outro dia. Se escalar, nenhuma medida doméstica vai ser suficiente.
3. O impacto político se materializa? Eleições de meio de mandato em novembro. Se os preços ainda estiverem altos em setembro e outubro, o combustível vira o tema central da campanha — e os republicanos vão ter dificuldade para defender o legado energético de Trump.
O recado
Trump tem poucas opções reais para segurar o preço do combustível enquanto a guerra continuar.
Suspender a Jones Act é uma delas — limitada, mas disponível. É o tipo de medida que não resolve o problema, mas mostra que o governo está fazendo alguma coisa. E em política, às vezes, parecer ativo importa tanto quanto ser eficaz.
A guerra escalou. O petróleo subiu. A gasolina foi junto.
E o presidente que prometeu energia barata está prestes a suspender uma lei de cem anos para tentar cumprir a promessa.
O resultado vai aparecer na bomba — ou nas urnas.




