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Ben Affleck vende sua empresa de IA para a Netflix

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Ben Affleck não conseguiu salvar o Batman. Mas pode ter salvado o futuro da IA em Hollywood.

A Netflix anunciou nesta quinta-feira (5) a aquisição da InterPositive, startup de inteligência artificial fundada em 2022 pelo ator e cineasta. Os termos financeiros não foram divulgados — mas toda a equipe da empresa, 16 pessoas entre engenheiros, pesquisadores e profissionais criativos, passa a integrar a plataforma.

Affleck assume o cargo de consultor sênior. É a primeira vez que ele aparece nos créditos de um produto de tecnologia.

O que é a InterPositive

Antes de mais nada: a InterPositive não é mais um gerador de vídeos com IA.

Não é o Sora, da OpenAI. Não é o Veo 3, do Google. Não gera cenas a partir de comandos de texto. Não substitui atores, roteiristas ou diretores.

O que ela faz é diferente — e mais cirúrgico. A tecnologia aprende durante o uso e serve para refinar o material bruto já gravado pelos estúdios. Mixagem de cores, correção de iluminação, adição de efeitos visuais, reenquadramento de planos.

Em termos simples: é uma ferramenta de pós-produção turbinada por inteligência artificial, construída com a linguagem que cineastas já conhecem. Não substitui o diretor. Trabalha com ele.

A empresa nasceu exatamente da insatisfação de Affleck com os usos de IA que começavam a aparecer em sets de filmagem. Ele não gostou do que viu e decidiu construir o que achava que deveria existir.

Por que a Netflix comprou

A Netflix costuma desenvolver tecnologia internamente. Adquirir uma startup é algo fora do padrão para a empresa — o que já diz bastante sobre o que ela enxerga na InterPositive.

Elizabeth Stone, diretora de produto e tecnologia da plataforma, fez questão de deixar claro o posicionamento: a ferramenta não tem como objetivo tornar filmes mais baratos ou mais rápidos de produzir.

“As ferramentas da InterPositive são projetadas para ajudar cineastas a produzir conteúdo de maior qualidade”, afirmou.

É uma declaração importante — e claramente calculada. A Netflix está comprando uma ferramenta de IA num momento em que Hollywood ainda está digerindo os efeitos da maior greve dos últimos anos. Cada palavra importa.

A diretora de conteúdo Bela Bajaria complementou: a tecnologia dará aos parceiros criativos “mais escolhas, mais controle e mais proteção para a visão deles.” Três palavras que o sindicato de atores e roteiristas gosta de ouvir: escolha, controle e proteção.

O fantasma da greve de 2023

Em 2023, atores e roteiristas paralisaram Hollywood numa greve histórica. Um dos pontos centrais: a regulação do uso de IA.

O acordo firmado ao fim estabeleceu limites claros — textos já produzidos não podem ser reescritos por ferramentas de IA, e a tecnologia não pode ser a fonte primária de roteiros.

A InterPositive, pelo menos publicamente, não vai nessa direção. Ela não escreve roteiros, não reescreve diálogos, não gera atores digitais. Atua na pós-produção — um território menos regulado pelo acordo sindical.

Mas o mercado está observando. E qualquer passo em falso da Netflix nesse tema vai ser amplificado.

O que Affleck disse

Em vídeo de divulgação, Affleck foi ao ponto com uma frase que parece treinada para desativar objeções: “Isso não se trata de digitar algo em um computador e receber um filme pronto. Isso não é o que fazemos.”

É quase um mantra preventivo. Ele sabe que o ceticismo em Hollywood sobre IA é alto — e que sua própria credibilidade como cineasta está em jogo nessa aposta.

Affleck não é um ator que resolveu brincar de tecnologia. Ele dirigiu filmes aclamados, ganhou Oscar de roteiro e passou anos entendendo como sets de filmagem funcionam. A InterPositive foi construída a partir dessa experiência, não apesar dela.

Isso diferencia a empresa de dezenas de startups de IA fundadas por engenheiros que nunca pisaram num set.

A decisão de não vender para o mercado

Um detalhe importante: a Netflix não pretende comercializar as ferramentas da InterPositive. Elas serão oferecidas apenas aos parceiros criativos da plataforma.

É uma escolha estratégica. Manter a tecnologia fechada significa que ela vira vantagem competitiva exclusiva — produtores que quiserem usá-la precisam trabalhar com a Netflix.

Numa indústria onde a batalha pelo talento criativo é constante, ter ferramentas que os melhores cineastas querem usar é uma forma de atração que vai além do cheque.

O contexto: a Warner ficou de fora

O anúncio vem poucos dias depois da Netflix abandonar a compra da Warner Bros. Discovery — um negócio que teria sido um dos maiores da história do entretenimento.

A InterPositive é o oposto em escala: 16 pessoas, tecnologia nichada, sem valor divulgado. Mas os dois movimentos juntos contam uma história sobre a estratégia da Netflix.

A plataforma não quer ser um estúdio tradicional com catálogo de décadas e ativos físicos. Quer ser uma plataforma tecnológica de entretenimento — com ferramentas proprietárias, parceiros criativos fiéis e tecnologia que concorrentes não têm.

A Warner era o passado do cinema. A InterPositive é uma aposta no futuro dele.

O que vem por aí

Três pontos para acompanhar:

1. Como os sindicatos vão reagir? O acordo de 2023 estabeleceu limites para IA, mas a pós-produção é território cinzento. Se a Netflix usar a InterPositive de formas que pareçam ameaçar empregos técnicos, a reação pode ser rápida.

2. A tecnologia vai vazar para o mercado? Manter ferramentas de IA fechadas é difícil. Engenheiros mudam de emprego, startups surgem com abordagens parecidas. A vantagem competitiva tem prazo de validade.

3. Affleck entrega como consultor? Esse é o ponto mais curioso. Ele é um cineasta respeitado, mas o papel de consultor sênior em empresa de tecnologia é diferente de tudo que já fez. Se funcionar, vira caso de manual. Se não funcionar, vira piada.

O recado

A Netflix comprou uma ferramenta de IA construída por um cineasta, para cineastas, com o cuidado de não parecer ameaçadora para cineastas.

É o movimento mais politicamente habilidoso que uma plataforma de streaming poderia fazer no momento em que Hollywood ainda olha para IA com desconfiança.

Se der certo, a Netflix fica com tecnologia exclusiva e credibilidade no meio criativo. Se der errado, ficou com 16 engenheiros e um consultor que já interpretou o Batman.

Há piores aquisições no histórico do setor.

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