David Zaslav não é o tipo de executivo que sai de mãos abanando.
O CEO da Warner Bros. Discovery pode receber mais de US$ 667 milhões — cerca de R$ 3,5 bilhões — com a venda da empresa para a Paramount Skydance. O valor foi detalhado num documento enviado pela companhia nesta segunda-feira (16).
Para contextualizar: é o tipo de número que faz qualquer pessoa repensar se escolheu a carreira certa.
De onde vem esse dinheiro todo
O pacote é dividido em várias camadas:
US$ 34,2 milhões em rescisão em dinheiro — a indenização por deixar o cargo.
US$ 115,8 milhões em ações já adquiridas — papéis que ele já tinha direito e que agora serão convertidos.
US$ 517,2 milhões em ações que serão liberadas com a conclusão do negócio — o maior pedaço do bolo, condicionado à venda se concretizar.
Até US$ 335,4 milhões em reembolso de impostos — calculado com base em 11 de março e que diminui conforme a operação demora. Se a venda só fechar em 2027, esse valor cai a zero.
Zaslav também já embolsou US$ 113 milhões com a venda de ações da Warner Bros. no início deste mês. Antes de qualquer Golden Parachute, ele já garantiu nove dígitos.
A trajetória que levou até aqui
Zaslav foi o arquiteto da fusão entre a Discovery e a WarnerMedia em 2022. Na época, a ideia era criar um gigante do entretenimento capaz de competir com Netflix e Disney no streaming.
O plano não funcionou como esperado.
As ações da Warner Bros. Discovery despencaram nos anos seguintes — pressionadas pela queda estrutural da TV por assinatura, pelo custo alto da dívida herdada da fusão e pela dificuldade de fazer o streaming crescer rápido o suficiente para compensar. A empresa que deveria ser um contrapeso à Netflix virou alvo de aquisição.
Com a Paramount fazendo uma oferta, Zaslav conduziu a venda. Primeiro negociou para vender os estúdios e o negócio de streaming separadamente para a Netflix. Depois, com mudanças repetidas nos termos e um aumento do preço para US$ 31 por ação, o conselho concordou em vender a empresa inteira para a Paramount por US$ 110 bilhões — incluindo dívidas.
O paradoxo do Golden Parachute
Zaslav é presença frequente nas listas de executivos mais bem pagos dos Estados Unidos. E o pacote de saída da Warner é mais um capítulo dessa história.
O paradoxo é evidente: as ações caíram, a empresa foi vendida, e o CEO sai com R$ 3,5 bilhões.
Isso não é anomalia. É como contratos de executivos de alto nível funcionam nos Estados Unidos. O Golden Parachute — o “paraquedas dourado” — existe para garantir que o CEO tome decisões no interesse dos acionistas sem medo de perder o emprego. A teoria é que, se ele souber que vai sair bem, não vai tentar manter o cargo a qualquer custo e vai aceitar a venda quando for o melhor negócio para a empresa.
Na prática, significa que quem conduziu a empresa à situação que a obrigou a ser vendida recebe centenas de milhões para formalizar essa venda.
O negócio ainda não fechou
O acordo com a Paramount por US$ 110 bilhões ainda depende da aprovação de reguladores e de um voto dos acionistas da Warner Bros.
É uma operação enorme — que vai criar um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, reunindo Warner, HBO, CNN, Paramount, MTV e um catálogo de décadas de filmes e séries.
Se os reguladores travarem ou os acionistas rejeitarem, o pacote de Zaslav muda. O reembolso de impostos, especialmente, encolhe com o tempo. E se a venda não acontecer até 2027, essa fatia some completamente.
O que vem por aí
A fusão Paramount-Warner precisa passar pelo escrutínio antitruste. É uma consolidação enorme num setor que já foi apontado como concentrado demais.
O ambiente regulatório nos EUA sob Trump é mais permissivo que o anterior — o que aumenta as chances de aprovação. Mas qualquer exigência de desinvestimento pode mudar os termos do negócio e, consequentemente, o valor que Zaslav vai receber.
O recado
David Zaslav passou três anos tentando transformar a Warner Bros. Discovery num competidor do Netflix. As ações caíram. A estratégia de streaming não decolou. A empresa foi vendida.
E ele vai receber R$ 3,5 bilhões por isso.
Isso diz mais sobre como o mercado americano remunera executivos do que sobre o desempenho de Zaslav especificamente. Contratos desse tipo são negociados na entrada, não na saída — e refletem o poder de barganha de quem assina.
Mas é difícil não notar a ironia: o paraquedas do CEO pousa suavemente enquanto os acionistas observam lá de baixo, calculando quanto perderam desde 2022.




