O conglomerado estatal Poste Italiane — o equivalente italiano dos Correios, só que muito maior e mais diversificado — apresentou uma oferta de 10,8 bilhões de euros (cerca de R$ 66 bilhões) para adquirir a Telecom Italia, a TIM italiana. A diretoria da TIM se reúne nesta segunda-feira (23) para avaliar formalmente a proposta.
O que está sendo comprado
A TIM italiana não é a mesma TIM do Brasil — mas são parentes próximas. A operadora controla redes de telecomunicações, computação em nuvem, data centers e uma unidade de cibersegurança chamada Telsy.
A Poste Italiane já havia comprado no ano passado os 27% da TIM que pertenciam à francesa Vivendi, tornando-se a principal acionista. A oferta atual mira o restante das ações que a estatal ainda não tem.
Se a aquisição se concluir até o final deste ano — como planejado — toda a infraestrutura digital da TIM italiana volta para as mãos do Estado italiano. Três décadas após a privatização.
Por que a Itália quer isso de volta
A resposta oficial é soberania digital.
O CEO da Poste, Matteo Del Fante, foi direto: assumir o controle da infraestrutura de redes, nuvem e data centers da TIM é essencial para garantir vantagem competitiva — e, nas entrelinhas, para manter dados sensíveis de cidadãos e empresas italianas fora do alcance de empresas estrangeiras.
O movimento faz parte de uma tendência maior na Europa. Vários governos da União Europeia estão tentando criar “campeões nacionais” em setores estratégicos — empresas grandes o suficiente para competir com as big techs americanas e que permaneçam sob algum nível de controle estatal.
É a resposta europeia para uma pergunta que não para de crescer: o que acontece quando toda a infraestrutura digital de um país está nas mãos de empresas privadas, muitas delas estrangeiras?
A Itália está respondendo com cheque de R$ 66 bilhões.
O que o mercado achou
A reação foi reveladora.
Ações da Poste caíram 7% no anúncio. Ações da TIM subiram 5%.
O mercado está dizendo duas coisas ao mesmo tempo: bom negócio para quem vende, custo alto para quem compra. Os investidores da Poste não ficaram animados com a ideia de a estatal gastar bilhões numa empresa com endividamento crônico.
Porque esse é o outro lado da história: a TIM carrega dívidas pesadas acumuladas desde logo após a privatização — quando a empresa fez aquisições agressivas que nunca pagaram o que prometiam. Quem compra a TIM compra também esse passivo.
E a TIM do Brasil?
A TIM brasileira é uma empresa separada, mas ligada ao mesmo grupo. E sua situação não é das melhores.
A operadora tem a terceira maior fatia do mercado brasileiro de telefonia móvel com 22,9% — atrás da Vivo (38%) e da Claro (33,1%). Desde 2022, perde participação consecutivamente.
Desde esse mesmo ano, políticos italianos colocam em dúvida a permanência da subsidiária brasileira. A venda da operação no Brasil é vista como uma saída para levantar caixa sem comprometer a sede europeia.
A Telefónica, dona da Vivo, também avalia comprar a TIM Brasil — o que colocaria a segunda e terceira colocadas sob o mesmo dono e criaria um duopólio com a Claro.
Se isso acontecer, o consumidor brasileiro de telefonia vai notar. Menos concorrência costuma significar menos promoção e mais conta cara.
O que vem por aí
A diretoria da TIM italiana vai avaliar a proposta da Poste. Pode aceitar, rejeitar ou negociar condições melhores.
Se aceitar, a Itália terá reestatizado em 2025 uma empresa que privatizou nos anos 90 — completando um ciclo de três décadas que não terminou bem para nenhuma das partes.
Para o Brasil, o desfecho da aquisição na Itália vai influenciar o que acontece com a TIM brasileira. Se a Poste assumir o controle total, pode decidir manter ou desinvestir a subsidiária — e essa decisão vai depender de quanto precisa de caixa e de qual é a estratégia para os próximos anos.
O recado
A tentativa de recompra da TIM pela Itália é um sintoma de algo maior: governos europeus reconhecendo que perderam o controle de infraestrutura que consideram estratégica — e tentando recuperá-la.
É uma aposta cara. A TIM tem dívida, perde mercado e enfrenta concorrência crescente. Mas a alternativa — deixar redes, dados e data centers nas mãos de players privados sem controle estatal — parece pior para Bruxelas e Roma.




