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Mastercard pagou U$1,8 bilhão para aprender a usar stablecoin

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A Mastercard existe desde 1966. A BVNK foi fundada em 2021. Quatro anos depois, a gigante dos cartões pagou US$ 1,8 bilhão para comprar a startup.

O setor financeiro tradicional está, finalmente, levando a sério o que antes ignorava.

O que é a BVNK

A BVNK é uma empresa de infraestrutura financeira fundada no Reino Unido que conecta o sistema financeiro tradicional às redes blockchain.

Em termos práticos: ela permite que empresas movimentem dinheiro usando stablecoins — moedas digitais atreladas ao dólar ou outras moedas reais — de forma rápida, barata e integrada com os sistemas financeiros que já existem.

Opera em mais de 130 países e levantou capital de investidores até atingir valuation de US$ 750 milhões em dezembro de 2024. Menos de um ano depois, a Mastercard pagou mais de US$ 1,8 bilhão — mais que o dobro desse valor.

Bom negócio para quem investiu na rodada Série B.

O que são stablecoins, em 30 segundos

Stablecoin é uma criptomoeda cujo valor é fixado numa moeda tradicional — geralmente o dólar americano.

Diferente do Bitcoin, que oscila muito, uma stablecoin em dólar vale sempre US$ 1. O que muda é que ela circula numa rede blockchain: transferências são mais rápidas, mais baratas e funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana — sem depender de bancos ou horário comercial.

Para empresas que fazem pagamentos internacionais, isso é atraente. Uma transferência bancária tradicional entre países pode levar dias e custar caro. Com stablecoin, o mesmo movimento pode acontecer em segundos por uma fração do custo.

Por que a Mastercard está comprando isso agora

Dois fatores explicam o timing.

O primeiro é regulatório. Em julho de 2025, os Estados Unidos aprovaram o Genius Act — a primeira legislação federal que cria regras claras para stablecoins no país. Antes disso, o mercado operava numa zona cinzenta que afastava players tradicionais. Com regras definidas, empresas como a Mastercard passaram a poder investir com segurança jurídica.

O segundo é competitivo. A Visa — principal rival da Mastercard — já está testando liquidação com stablecoins nos EUA desde o fim do ano passado. Quando o concorrente direto se move, ficar parado tem custo.

A aquisição da BVNK é a resposta da Mastercard para não ficar para trás nessa transição.

O que muda nos pagamentos

A Mastercard deixou claro o objetivo: integrar pagamentos “on-chain” — feitos em blockchain — com os trilhos financeiros tradicionais que a empresa já opera.

Isso não significa que o cartão de crédito vai sumir. Significa que a Mastercard quer ser a infraestrutura que conecta os dois mundos: o sistema financeiro tradicional de um lado, e as redes de stablecoin do outro.

A empresa quer que seja possível, por exemplo, que uma empresa no Brasil pague um fornecedor na Ásia instantaneamente, usando stablecoin, com liquidação quase em tempo real e custo de transação muito menor do que uma transferência bancária convencional.

“Esperamos que a maioria das instituições financeiras e fintechs passe a oferecer serviços com moedas digitais”, disse Jorn Lambert, Chief Product Officer da Mastercard.

Não é uma aposta. É uma previsão de mercado que a empresa está se posicionando para capturar.

Os detalhes do acordo

O valor total é de US$ 1,8 bilhão — sendo US$ 300 milhões condicionados a metas de desempenho futuras.

Essa estrutura é comum em aquisições de startups: parte do pagamento fica atrelada a resultados. Se a BVNK entregar o que promete nos próximos anos, os fundadores e investidores recebem o bônus. Se não entregar, ficam com menos.

É uma forma de alinhar incentivos — e de garantir que quem vendeu continue motivado a fazer o negócio crescer depois da aquisição.

A transação ainda depende de aprovação regulatória e deve ser concluída antes do final do ano.

O contexto maior

Mastercard e Visa dominam a infraestrutura de pagamentos globais há décadas. Cada vez que alguém passa um cartão em qualquer lugar do mundo, um dos dois provavelmente está no meio da transação cobrando uma fração do valor.

Stablecoins ameaçam esse modelo porque criam uma alternativa de transferência de valor que não precisa passar por essas redes. Uma empresa pode pagar outra diretamente, em segundos, sem intermediário.

A resposta das redes de cartão não foi resistir. Foi comprar a infraestrutura e se tornar o intermediário das stablecoins também.

É o mesmo movimento de sempre no setor financeiro: quando uma nova tecnologia ameaça o modelo, compre antes que ela cresça demais para comprar.

O que vem por aí

A aprovação regulatória nos EUA e Europa vai definir o ritmo de integração. Se os reguladores europeus colocarem obstáculos — como fizeram com outras aquisições de big techs — o fechamento pode atrasar.

Mas o sinal de direção está dado. Mastercard comprou. Visa está testando. Os bancos centrais ao redor do mundo desenvolvem moedas digitais próprias.

O dinheiro está ficando digital de um jeito ou de outro. A disputa agora é sobre quem vai controlar a infraestrutura por onde ele vai circular.

O recado

A Mastercard não comprou uma startup de cripto. Comprou uma aposta no futuro dos pagamentos internacionais.

Stablecoins não são Bitcoin. Não são especulação. São infraestrutura — mais rápida, mais barata e cada vez mais regulamentada.

Quando a empresa que processa bilhões de transações por dia decide pagar US$ 1,8 bilhão por tecnologia de blockchain, o sinal é claro: isso deixou de ser nicho e virou mercado de verdade.

A BVNK foi fundada há quatro anos. Em 2025 valia US$ 750 milhões. Hoje vale mais do dobro.

O próximo capítulo vai ser ver se a Mastercard consegue integrar tudo isso sem perder o que tornou a BVNK valiosa: ser ágil num mercado onde os grandes são lentos.

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