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Tiktok anuncia datacenter de US$1 bilhão na Finlândia

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A ByteDance, controladora chinesa do TikTok, anunciou nesta quarta-feira um novo investimento de 1 bilhão de euros num segundo data center na Finlândia — em menos de um ano após o primeiro.

O novo centro, em Lahti, no sul do país, terá capacidade inicial de 50 megawatts e potencial total de 128 MW. O objetivo declarado: transferir o armazenamento de dados de mais de 200 milhões de usuários europeus para o continente.

É parte de uma iniciativa maior de soberania de dados avaliada em 12 bilhões de euros. O TikTok quer convencer a Europa de que os dados dos europeus ficam na Europa.

Por que a Finlândia

A Finlândia virou um polo de atração para data centers pelos motivos mais pragmáticos possíveis.

O clima é frio — o que reduz custos de resfriamento, que são parte relevante do custo operacional de qualquer data center. A eletricidade é barata, de baixa emissão de carbono e estável. E o ambiente regulatório dentro da União Europeia é previsível.

Microsoft e Google já estão lá pelos mesmos motivos. O TikTok está seguindo a mesma lógica geográfica.

O problema político

A racionalidade econômica e a realidade política são coisas diferentes.

Quando a Reuters revelou os planos do TikTok para o primeiro data center na Finlândia, em abril do ano passado, os políticos finlandeses não tinham sido informados — mesmo que o Ministério da Defesa já tivesse aprovado o investimento.

O ministro da Economia da época, Wille Rydman, pediu abertamente que o projeto fosse “reconsiderado” por questões de segurança e falta de transparência. Chegou ao ponto de sugerir publicamente que a empresa parceira reavaliasse “se realmente deseja o TikTok como inquilino.”

É o tipo de declaração que não costuma vir de ministros falando sobre Microsoft ou Google.

O ponto central da preocupação é a origem da empresa: a ByteDance é chinesa. Em tempos de tensão geopolítica crescente entre Ocidente e China, ter dados de 200 milhões de europeus armazenados em infraestrutura de uma empresa chinesa — mesmo que fisicamente na Europa — levanta questões sobre quem pode ter acesso a esses dados.

O que o TikTok argumenta

A empresa diz que os dados dos usuários europeus já estão armazenados com “medidas de segurança reforçadas” em data centers na Noruega, Irlanda e Estados Unidos. Os novos centros na Finlândia fazem parte de uma estratégia de mover tudo para o solo europeu.

A narrativa do TikTok é de conformidade: estamos investindo bilhões para garantir que os dados europeus fiquem na Europa, sob as leis europeias. O projeto “Project Clover” — o nome interno da iniciativa de soberania de dados — inclui auditoria por terceiros independentes.

É uma resposta aos reguladores. Se os dados estão na Europa, em servidores que podem ser auditados por autoridades europeias, o argumento de que a China pode acessá-los fica mais difícil de sustentar.

O contexto americano

O TikTok evitou uma proibição nos EUA em janeiro, depois de meses de batalha jurídica e política. A empresa conseguiu manter as operações após negociações que ainda não chegaram a uma resolução definitiva sobre propriedade.

Na Europa, a pressão é diferente — menos sobre propriedade e mais sobre privacidade, proteção de dados e impacto em crianças. Os reguladores europeus têm investigado o TikTok por supostos efeitos de algoritmos viciantes em menores.

Investir em data centers europeus é uma forma de responder aos dois tipos de preocupação: “os dados ficam aqui” é um argumento para ambos.

O que o prefeito de Lahti achou

O prefeito de Lahti, Niko Kyyrainen, comemorou.

“No contexto de Lahti, o investimento é substancial. Estamos satisfeitos que um contrato de locação foi assinado e que o projeto está progredindo conforme planejado.”

É a tensão clássica entre o nível nacional — preocupado com segurança e geopolítica — e o nível local — preocupado com empregos, receita tributária e desenvolvimento regional.

Para Lahti, 1 bilhão de euros de investimento é transformador. Para Helsinque, é uma dor de cabeça política.

O que vem por aí

O primeiro data center finlandês, em Kouvola, deve entrar em operação até o final deste ano. O segundo, em Lahti, está previsto para 2027.

A questão regulatória permanece aberta. As investigações europeias sobre o TikTok não vão parar porque a empresa construiu data centers. E a tensão geopolítica entre Ocidente e China não vai resolver em dois anos.

O TikTok está apostando que, ao demonstrar conformidade com investimentos bilionários em solo europeu, consegue construir credibilidade suficiente para operar sem restrições no mercado europeu.

Pode funcionar. Ou a Europa pode decidir que o problema não é onde os dados estão armazenados, mas quem os controla.

O recado

O TikTok está gastando bilhões para convencer a Europa de que pode ser confiável.

É a estratégia mais cara possível de construção de reputação — mas pode ser a única que funciona quando a empresa matriz é chinesa e o contexto geopolítico é o que é.

Os dados dos europeus vão ficar na Finlândia. A pergunta que os reguladores estão fazendo é: mas quem tem a chave?

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