O BRB apostou no Banco Master. O Master afundou. Agora Brasília vai pagar a conta.
A Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou na noite de terça-feira (3) um projeto de capitalização do banco estatal brasiliense que inclui um empréstimo de R$ 6,6 bilhões e a utilização de nove imóveis públicos.
O motivo? O BRB perdeu dinheiro investindo num banco que o Banco Central acabou liquidando. E agora precisa de uma injeção de capital para não afundar junto.
O que aconteceu com o BRB
O BRB — Banco de Brasília, banco estatal do Distrito Federal — fez investimentos no Banco Master. O Master foi alvo de liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro do ano passado.
Quando um banco vai à liquidação, quem tinha dinheiro investido nele costuma perder. O BRB perdeu. E perdeu o suficiente para precisar recompor o capital e apresentar um plano de ação ao Banco Central.
A capitalização aprovada pela Câmara Legislativa é exatamente essa recomposição — feita com dinheiro público e imóveis do governo do DF.
O contribuinte brasiliense não investiu no Master. Mas vai ajudar a pagar a fatura.
A tentativa de compra que não deu certo
Antes da liquidação, o BRB chegou a tentar comprar 58% das ações do Master.
Em setembro do ano passado, o Banco Central rejeitou a proposta. Em outubro, o BRB desistiu da operação.
No papel, parecia uma jogada ousada: o banco estatal compraria participação majoritária num banco privado em dificuldades, assumindo o controle e evitando o colapso. Na prática, o BC não deixou a operação acontecer.
Mas os investimentos já feitos antes dessa tentativa de compra permaneceram. E foi aí que o prejuízo se consolidou.
A Polícia Federal entrou no jogo
Em fevereiro, a Polícia Federal abriu um inquérito criminal para apurar gestão fraudulenta no BRB.
É mais um desdobramento das investigações que envolvem o Banco Master — e agora chegam diretamente ao banco estatal de Brasília.
Inquérito criminal não é condenação. É o início de uma investigação formal. Mas o sinal é claro: as autoridades querem entender como o BRB tomou as decisões de investimento que resultaram nesse prejuízo.
Alguém vai ter que explicar por que o dinheiro público foi parar num banco que o Banco Central liquidaria poucos meses depois.
O que o BRB apresentou ao Banco Central
Em fevereiro, o banco estatal apresentou ao BC uma série de medidas para recompor seu capital.
A aprovação do projeto de capitalização pela Câmara Legislativa faz parte desse pacote. O empréstimo de R$ 6,6 bilhões e os nove imóveis públicos entram como recursos para reforçar o balanço da instituição e demonstrar ao regulador que o banco tem condições de se manter solvente.
É o tipo de conversa que nenhum banco gosta de ter com o Banco Central. Mas prefível a não ter.
O que são os nove imóveis
O projeto aprovado inclui a utilização de nove imóveis públicos como parte da capitalização.
Os detalhes sobre quais imóveis são esses e como serão usados — se como garantia, se como aporte direto de capital — não foram especificados no comunicado da Câmara Legislativa. Mas a inclusão de patrimônio público numa operação de salvamento bancário levanta questões óbvias sobre o custo real da aventura no Master para o Distrito Federal.
Brasília tem imóveis que valem muito. Usar parte desse patrimônio para cobrir o prejuízo de um investimento malsucedido é uma escolha que vai exigir muita explicação.
O tamanho do problema
R$ 6,6 bilhões não é um número pequeno para o orçamento do Distrito Federal.
Para ter uma referência: é o tipo de valor que poderia financiar anos de investimento em saúde, educação ou infraestrutura. Em vez disso, vai para recompor o capital de um banco estatal que apostou no parceiro errado.
O Banco Master foi um dos casos mais ruidosos do mercado financeiro brasileiro nos últimos anos — um banco que cresceu rapidamente, captou recursos de investidores pessoa física com taxas acima do mercado e acabou sendo liquidado pelo BC depois que o modelo de negócio não se sustentou.
O BRB estava sentado perto demais dessa fogueira.
O que vem por aí
Três frentes vão definir os próximos capítulos dessa história:
1. O inquérito da Polícia Federal. A investigação sobre gestão fraudulenta pode chegar a nomes, decisões e responsabilidades específicas. Se houver indiciamento, a crise deixa de ser só financeira e vira crise política também.
2. A relação com o Banco Central. O BC aprovou o plano de recomposição? Quais são as condições? O regulador vai acompanhar de perto a execução e qualquer desvio pode acender novos alertas.
3. A governança do BRB. Como um banco estatal chegou a essa situação? Quem aprovou os investimentos no Master? Essas perguntas vão aparecer nas investigações e no debate político do DF nos próximos meses.
O recado
O BRB sobrevive. Mas a sobrevivência tem um preço — e quem vai pagar é o Distrito Federal.
R$ 6,6 bilhões em empréstimo, nove imóveis públicos e um inquérito criminal em andamento. Esse é o custo de ter apostado num banco que o Banco Central acabaria liquidando.
A Câmara aprovou a capitalização. O dinheiro vai entrar. O banco vai seguir funcionando.
Mas a conta do Master ainda não fechou. E as perguntas sobre quem tomou essas decisões — e por quê — estão só começando a ser feitas.




