A Google fechou a maior aquisição da sua história.
A compra da Wiz, startup israelense de segurança em nuvem, foi concluída na semana passada após um ano de análises regulatórias. O valor oficial não foi divulgado, mas em março do ano passado a oferta era de US$ 32 bilhões — mais do que qualquer negócio que a empresa já fez.
O mais curioso: a Google comprou uma empresa que vai continuar protegendo os servidores da Amazon, da Microsoft e da Oracle. Os concorrentes diretos.
O que é a Wiz
A Wiz foi fundada em 2020 por ex-executivos da Microsoft e se tornou uma das startups de segurança cibernética que mais cresceu na história recente.
Em quatro anos, levantou US$ 1,9 bilhão em capital de risco — com investidores como Andreessen Horowitz, Sequoia Capital, Lightspeed e Salesforce Ventures — e conquistou metade das empresas do Fortune 100, o ranking das maiores corporações americanas.
O produto da Wiz resolve um problema específico: empresas grandes usam várias nuvens ao mesmo tempo — Amazon, Microsoft, Google, Oracle. Cada uma tem suas próprias ferramentas de segurança. A Wiz funciona em todas elas, dando uma visão unificada de riscos e vulnerabilidades.
É o tipo de produto que o departamento de TI de uma grande empresa compra independente de qual nuvem usa. Daí o crescimento rápido.
Por que a Google pagou US$ 32 bilhões
Segurança em nuvem é um dos mercados que mais cresce no mundo corporativo — e vai acelerar ainda mais com a adoção de inteligência artificial.
Quando uma empresa começa a rodar modelos de IA com dados estratégicos, a preocupação com segurança dobra. Quem tem acesso? Os dados estão protegidos? Se houver uma brecha, qual o impacto?
A Google enxergou na Wiz uma resposta para isso — e uma forma de tornar o Google Cloud mais atraente para empresas que precisam de segurança robusta em múltiplas nuvens.
A integração das ferramentas da Wiz com a infraestrutura do Google Cloud vai, segundo a empresa, ajudar clientes a “desenvolver, implantar e operar sistemas baseados em IA com mais segurança.”
Em termos práticos: quem usa Google Cloud vai ter acesso às ferramentas da Wiz nativas. Quem usa Amazon ou Azure pode contratar a Wiz separadamente — e a Google vai embolsar essa receita também.
O detalhe inusitado: proteger a concorrência
Quando grandes empresas se compram, o normal é o adquirido virar exclusivo da plataforma compradora.
A Google fez diferente — pelo menos por enquanto.
A Wiz vai continuar oferecendo suas ferramentas para clientes que usam Amazon Web Services, Microsoft Azure e Oracle Cloud. A marca Wiz se mantém. A proposta de produto multiplataforma também.
A lógica é comercial: forçar a exclusividade ao Google Cloud afastaria metade dos clientes que a Wiz já tem. E muitos desses clientes usam múltiplas nuvens — incluindo o Google Cloud.
Manter a Wiz independente e multiplataforma preserva a receita e, de quebra, coloca a Google dentro de ambientes de dados de empresas que nem são clientes do Google Cloud.
É uma jogada mais sofisticada do que parece.
O caminho até o fechamento
O negócio foi anunciado em março de 2025 e levou mais de um ano para ser concluído — tempo gasto em análises regulatórias em diferentes países.
O principal obstáculo era a União Europeia, que tem sido mais criteriosa nas últimas anos com aquisições de big techs. Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia aprovou a transação sem restrições.]
Com a aprovação europeia, o caminho estava livre.
Vale lembrar que essa não foi a primeira tentativa. Em 2024, a Google havia feito uma oferta pela Wiz que foi recusada. A startup preferiu continuar independente na época — e cogitou um IPO. Um ano depois, aceitou a proposta revisada.
O que isso significa para o setor
A aquisição da Wiz por US$ 32 bilhões envia um sinal claro para o mercado de segurança cibernética: o setor está estratégico demais para as big techs deixarem nas mãos de startups independentes.
Microsoft, Amazon e Oracle vão ter que responder. Ou comprando seus próprios ativos de segurança, ou investindo pesado para construir o equivalente internamente.
Para as startups do setor, a mensagem é dupla: existe comprador disposto a pagar muito bem. Mas também existe risco de o mercado se consolidar rapidamente ao redor das plataformas de nuvem — reduzindo o espaço para players independentes.
O recado
A Google comprou a maior aquisição da sua história num setor que vai crescer por pelo menos uma década.
Segurança de dados e IA são dois temas que se cruzam cada vez mais. Toda empresa que adota inteligência artificial precisa garantir que seus dados estejam protegidos — e a Wiz resolve exatamente esse problema, em qualquer nuvem.
US$ 32 bilhões é muito dinheiro. Mas para uma empresa que fatura centenas de bilhões por ano em publicidade digital, é um investimento que pode se pagar várias vezes — se a aposta em nuvem e IA se confirmar nos próximos anos.
A Wiz saiu de startup fundada há cinco anos para peça central da estratégia da Google.
Não é mal para uma empresa criada por ex-executivos da Microsoft para proteger os servidores da concorrência.




