O combustível que move os caminhões do Brasil ficou quase 20% mais caro em menos de três semanas.
Entre os dias 1º e 16 de março, o diesel S10 subiu 19,71% nas bombas — segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), baseado em 192 mil notas fiscais eletrônicas de distribuidoras em todo o país.
Para ter noção do ritmo: na primeira semana do mês, o aumento já havia sido de 8,70%. Nos dias seguintes, mais 11 pontos percentuais. Os preços estão acelerando, não estabilizando.
Os outros combustíveis também subiram
O diesel foi o campeão de alta, mas não foi o único:
- Diesel S10: +19,71%
- Diesel aditivado: +17,61%
- Gasolina comum: +5,24%
- Gasolina aditivada: +2,88%
- Etanol: -0,66% (único que caiu)
O etanol foi na contramão porque depende da safra de cana — um fator interno — e não do petróleo importado. Os demais seguiram a mesma lógica: quanto mais dependente do barril lá fora, maior o aumento aqui dentro.
Por que o corte de imposto não segurou os preços
Na semana passada, o governo federal zerou o PIS e Cofins sobre o diesel. A Petrobras reajustou suas refinarias em R$ 0,38 o litro. A ideia era absorver parte do choque e evitar um aumento maior nas bombas.
Não funcionou.
O problema tem três camadas:
1. Quase 30% do diesel que o Brasil consome é importado. Esse combustível já chega ao país com os preços reajustados pelo petróleo em alta — e o governo não tem como controlar o preço de importação com isenção de imposto doméstico.
2. As refinarias privadas já reajustaram. A Refinaria de Mataripe, na Bahia — controlada pela Acelen, empresa do fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos — elevou seus preços independentemente do que a Petrobras fez.
3. A tributação perdeu peso. Após mudanças feitas em 2022, os impostos representam uma fatia menor do preço final do diesel. Cortá-los dói menos no preço final do que doía antes.
“O preço do combustível no Brasil é muito mais macroeconômico do que tributário”, disse Murilo Barco, diretor da Valêncio Pricing, consultoria especializada em custos de combustíveis.
Traduzindo: o governo pode mexer nos impostos, mas quem manda de verdade no preço é o barril de petróleo, o câmbio e o frete marítimo.
O problema que ninguém está falando: a oferta
Existe um risco que está passando abaixo do radar: o diesel pode começar a faltar.
O raciocínio é direto. O preço do diesel nas refinarias brasileiras — mesmo após o reajuste da semana passada — ainda está abaixo do preço internacional. Para um importador, trazer diesel de fora para vender no Brasil gera prejuízo.
Quando importar não compensa, os importadores param de importar. Quando param de importar, a oferta cai. Quando a oferta cai, o preço sobe mais — independentemente de qualquer política tributária.
Já há sinais de que essa restrição de oferta está começando. Se o petróleo continuar subindo e a defasagem dos preços domésticos não for corrigida, o problema pode se aprofundar.
O que esperar do frete e da inflação
Diesel mais caro não fica no posto. Ele atravessa toda a cadeia produtiva.
O caminhão que leva alimento do campo para o supermercado usa diesel. O ônibus de transporte público usa diesel. A obra usa diesel. O navio que traz produto importado usa diesel.
Uma alta de 20% no diesel em 16 dias é, em essência, um aumento de custo para tudo que se move no Brasil. Esse custo vai aparecer nos preços — de alimentos, de produtos industriais, de serviços de entrega — com uma defasagem de semanas.
A inflação que o brasileiro vai sentir em abril e maio já está sendo gerada agora.
Por que o problema continua
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não tem desfecho claro. O petróleo chegou a US$ 119 o barril esta semana — e os ataques às instalações de produção de energia na região mudaram o caráter do conflito: não é mais só ameaça às rotas marítimas, é dano à infraestrutura de extração.
Enquanto isso não se resolver, o petróleo continua caro. E enquanto o petróleo estiver caro, o diesel no Brasil vai continuar subindo — independente do que o governo cortar de imposto ou do que a Petrobras decidir nas suas refinarias.
O que vem por aí
Dois cenários definem o próximo capítulo:
Se a guerra escalar, o petróleo pode ultrapassar US$ 120 de forma sustentada. A defasagem do diesel brasileiro se aprofunda. Os importadores param de trazer combustível. A oferta cai. O preço nas bombas sobe mais — e desta vez não por causa de reajuste de refinaria, mas por falta de produto.
Se a guerra arrefecer, o petróleo pode recuar para a faixa de US$ 80-90. A pressão diminui. Os reajustes param. A inflação de combustível que está se formando agora não se confirma por completo.
Por enquanto, o mercado não está apostando na paz.
O recado
O governo fez o que podia fazer rápido: cortou imposto, coordenou reajuste parcial com a Petrobras. Não foi suficiente.
A raiz do problema está em Bagdá, Teerã e no Estreito de Ormuz — não em Brasília. E essa raiz, nenhuma política tributária resolve.
O diesel vai continuar subindo enquanto o barril estiver onde está. E o brasileiro vai sentir isso não só na bomba — mas no pão, no frango, na entrega e na passagem de ônibus.
A guerra no Oriente Médio chegou à mesa de jantar.
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