O Banco Central divulgou nesta segunda-feira (13) seu Relatório de Cidadania Financeira — e os números sobre endividamento das famílias brasileiras são preocupantes.
77% das famílias estavam endividadas em dezembro de 2024, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
30% da renda familiar está sendo usada para pagar dívidas.
29,1% das famílias têm dívidas em atraso.
12,7% dizem que não conseguem pagar o que devem.
15,4% se autodeclaram “muito endividados” — a estimativa do BC para o superendividamento no Brasil.
O que o BC está dizendo
O relatório classifica o superendividamento como um “problema crescente” no país. E aponta dois culpados principais: a facilidade de acesso ao crédito e a falta de educação financeira.
O terceiro fator, menos discutido: a falta de oferta responsável por parte das instituições financeiras — que concedem crédito sem verificar adequadamente se o cliente tem condição de pagar.
O documento destaca o cartão de crédito como um dos principais vetores do problema.
“O cartão de crédito é frequentemente apontado como um dos principais vilões do superendividamento devido às altas taxas de juros e à facilidade de uso, que muitas vezes leva ao consumo desenfreado”, diz o texto do BC.
Não é exagero. O rotativo do cartão de crédito no Brasil cobra em média mais de 400% ao ano. É uma das taxas mais altas do mundo para esse produto. Quem entra no rotativo por um mês e não consegue sair logo está num espiral difícil de reverter.
O diagnóstico do presidente do BC
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, foi além das estatísticas. Ele avaliou que brasileiros estão usando linhas de crédito emergenciais — como cheque especial e rotativo do cartão — como parte da renda regular.
Crédito emergencial existe para cobrir uma conta inesperada, um mês ruim, uma despesa fora do planejamento. Quando passa a ser usado para cobrir o salário que não chegou, a compra de supermercado ou a conta de luz, o problema deixa de ser pontual e vira estrutural.
Galípolo disse que isso “deveria ser alvo de uma discussão estrutural.” É uma forma diplomática de dizer: o país precisa resolver isso, não apenas empurrar o problema com programas de renegociação.
O novo Desenrola que está por vir
O governo está desenvolvendo um novo programa de renegociação de dívidas, nos moldes do Desenrola — que em 2023 permitiu que milhões de brasileiros regularizassem débitos com descontos.
A diferença desta vez: contrapartidas mais duras. Segundo informações da CNN Brasil, o programa deve limitar o acesso dos beneficiários a determinadas linhas de crédito após a renegociação.
É uma mudança relevante. O Desenrola original renegociava a dívida sem impor restrições ao comportamento futuro. Quem quitou a dívida e voltou a usar o mesmo cartão com os mesmos hábitos podia estar de volta à inadimplência em meses.
A lógica da restrição de crédito é endereçar exatamente isso: não adianta limpar o passivo se o comportamento que gerou o problema continua igual.
O ciclo que mantém o problema
O endividamento crônico das famílias brasileiras tem raízes em vários fatores que se retroalimentam.
Renda insuficiente ou irregular faz com que o crédito seja usado para cobrir necessidades básicas. Juros altíssimos fazem com que a dívida cresça mais rápido do que a capacidade de pagamento. A falta de educação financeira faz com que muitos não entendam quanto estão pagando de fato. E a oferta agressiva de crédito por parte dos bancos amplia o acesso a produtos que, nas mãos de quem já está apertado, pioram a situação.
A Selic em 14,75% — uma das maiores do mundo — não ajuda. Juros básicos altos se transmitem para todas as linhas de crédito, tornando qualquer dívida mais cara e mais difícil de pagar.
O que isso tem a ver com você
Mesmo quem não está endividado sente o efeito desse quadro.
Famílias endividadas consomem menos, o que reduz a atividade econômica. Inadimplência alta leva bancos a cobrar mais juros para compensar o risco — o que encarece o crédito para todos. E o volume de dívida impagável é um risco sistêmico que os reguladores precisam monitorar de perto.
O superendividamento não é só um problema individual de quem não soube gerenciar as finanças. É um sintoma de um sistema onde o crédito é caro, a renda é incerta e a educação financeira chegou tarde.
O recado
77% das famílias endividadas não é uma estatística de descuido individual. É o retrato de um país onde crédito fácil e juros altos formam uma combinação perigosa.
O BC reconheceu o problema. O governo está preparando mais um programa de renegociação. E o presidente do BC está dizendo que o debate precisa ser estrutural.
Programas de renegociação ajudam quem já está no buraco. O que evita que mais pessoas caiam nele é uma combinação de educação financeira, oferta responsável de crédito e — talvez o mais difícil — juros que não transformem qualquer dívida em armadilha.
Por enquanto, o Brasil tem o primeiro. Ainda está trabalhando no segundo. E o terceiro depende de uma guerra contra a inflação que está longe de terminar.
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