ECONOMIA

Governo prevê fechar as contas no azul em 2027

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O governo federal apresentou nesta quarta-feira o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para 2027 — o documento que estabelece as regras gerais e as metas fiscais para o orçamento do próximo ano.

A meta proposta: superávit primário de 0,5% do PIB em 2027. É o dobro da meta deste ano, que é de 0,25%.

O que é a LDO e por que importa

A LDO não é o orçamento em si — é o guia que define as metas, prioridades e parâmetros para construir o orçamento. Funciona como um roteiro: o filme (orçamento detalhado) vem depois, em agosto, quando o governo envia o texto completo ao Congresso.

O que a LDO define:

  • Qual é a meta fiscal do ano
  • Quais são as estimativas de receita e despesa
  • Quais são os limites para gastos federais
  • O salário mínimo de referência para o ano

É um documento técnico que raramente vira manchete — mas é onde se revelam as intenções reais do governo sobre as contas públicas.

A aposta no petróleo

Entre os fatores que sustentam a meta de superávit está uma expectativa que chama atenção: o governo está projetando aumento de receitas com petróleo — especialmente com a comercialização da parcela da União no pré-sal.

A lógica: o petróleo está caro por causa da guerra no Oriente Médio. Barril caro significa mais receita quando a União vende sua parte da produção do pré-sal.

É uma ironia do momento econômico. A mesma guerra que está pressionando a inflação, atrasando o corte de juros e perturbando o comércio global está, ao mesmo tempo, enchendo os cofres federais pelo lado do petróleo.

O risco óbvio: se a guerra terminar e o petróleo cair, essa receita estimada some junto. Construir uma meta fiscal em cima de petróleo caro em tempo de guerra é uma aposta.

O peso da Previdência

Do lado dos gastos, a Previdência Social continua sendo o maior componente do orçamento — com projeção de alcançar cerca de R$ 1,156 trilhão em 2027.

Esse número cresce por razões estruturais que não dependem de política: o Brasil está envelhecendo. Mais aposentados, mais pensões, mais benefícios de longa duração. E cada reajuste do salário mínimo eleva automaticamente o piso de aposentadorias e benefícios — o que amplia o gasto previdenciário.

O salário mínimo estimado para 2027 é de R$ 1.717. Esse número não é só referência salarial — é a base de cálculo para milhões de benefícios do INSS e programas sociais.

A boa notícia: menos precatórios

Precatórios são dívidas judiciais do governo — sentenças condenando a União ou estados a pagarem valores a credores. Em anos recentes, o volume de precatórios criou um problema fiscal relevante.

Em 2027, a projeção é de redução nessa despesa, o que abre um pouco mais de espaço no orçamento. Não é uma solução estrutural, mas é um alívio real nos números do ano.

O problema que não desaparece

Mesmo com a meta mais ambiciosa e a receita extra do petróleo, técnicos do governo reconhecem que os desafios estruturais persistem.

O orçamento federal é extremamente rígido: a maior parte dos gastos é obrigatória por lei ou por regras constitucionais. A margem para corte é pequena. E as despesas obrigatórias — Previdência, salário mínimo, benefícios — crescem por fatores que não dependem de decisão política.

Para cumprir metas fiscais nesse ambiente, o governo precisa ampliar receitas. E é aí que entram apostas como o petróleo caro.

O que acontece agora

O PLDO vai ao Congresso para análise. O orçamento detalhado — com todos os valores por programa, ministério e ação — será enviado em agosto.

Nas próximas semanas, o debate vai girar em torno de se a meta de 0,5% é crível ou se é mais uma promessa fiscal difícil de cumprir no ambiente atual: inflação subindo, juros altos por mais tempo e uma guerra que pode terminar amanhã ou durar mais um ano.

O recado

O governo quer fechar 2027 com mais superávit do que 2026. Para isso, está contando com petróleo caro, menos precatórios e controle das despesas discricionárias.

A aposta no petróleo é o ponto mais frágil. Não porque seja errado incluir nas projeções — é uma receita real. Mas porque é uma receita que depende de uma guerra continuar.

Se a paz chegar no Oriente Médio antes do previsto, o petróleo cai, a receita cai com ele, e a meta de 0,5% fica mais difícil de cumprir.

O orçamento de 2027 está sendo montado num mundo em guerra. E esse é exatamente o tipo de variável que os orçamentos não conseguem controlar.

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