ECONOMIA

Focus: previsão da inflação a 5% preocupa

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O relatório Focus desta segunda-feira (20) trouxe duas novidades que mudam o tom do debate econômico.

A primeira: o IPCA projetado para 2026 subiu pela sexta semana consecutiva, chegando a 4,80%.

A segunda — e mais importante: o mercado revisou para cima a expectativa para a Selic no fim de 2026, de 12,50% para 13%. Uma alta de 0,50 ponto percentual numa única semana.

O que mudou

Nas últimas cinco semanas, o mercado estava revisando a inflação para cima enquanto mantinha a Selic estável. Era o sinal de que o mercado acreditava que os cortes de juros continuariam, mesmo com o IPCA subindo.

Esta semana isso mudou.

Revisar a Selic para cima significa que o mercado passou a acreditar que o Banco Central vai cortar menos — ou cortar mais devagar — do que se esperava. Em vez de encerrar 2026 em 12,50%, os juros devem ficar em 13%.

Para quem está acompanhando: a Selic está hoje em 14,75%. Chegar a 13% ainda é uma queda significativa. Mas é menos queda do que se esperava há uma semana.

O acúmulo de seis semanas

Há seis semanas, o IPCA projetado para 2026 era 4,10%. Agora está em 4,80%.

Isso é 0,70 ponto percentual de revisão em seis semanas — e já coloca a inflação esperada bem acima do teto da meta (4,5%).

Quando a inflação sobe nas projeções de forma persistente, o BC precisa responder. Não necessariamente subindo os juros — que é o que ninguém quer — mas pelo menos cortando menos e mais devagar do que o planejado.

É exatamente isso que o mercado está dizendo com a revisão da Selic.

Os outros números

PIB 2026: 1,86% — leve alta de 0,01 p.p. A atividade econômica surpreende positivamente, mesmo com o cenário complicado.

Câmbio 2026: R$ 5,30 — recuou em relação à semana anterior. O dólar mais fraco é consistente com o cessar-fogo no Oriente Médio melhorando o apetite por risco.

Balança comercial 2026: superávit de US$ 72,65 bilhões — salto relevante em relação aos US$ 70 bilhões estimados na semana passada. O petróleo caro está ajudando as exportações brasileiras.

O que a revisão da Selic significa na prática

Para quem tem dívida com juros variáveis: o alívio vai demorar mais.

Para quem investe em renda fixa: juros altos por mais tempo é bom para o rendimento das aplicações.

Para a economia em geral: crédito mais caro por mais tempo freia consumo e investimento. O PIB pode continuar surpreendendo no curto prazo, mas o custo do dinheiro alto acumula efeito com o tempo.

O que o cessar-fogo muda — ou não

Trump anunciou cessar-fogo de duas semanas com o Irã. O câmbio recuou, o que é um sinal de que o mercado está dando algum crédito à trégua.

Mas a inflação continuou subindo nas projeções — o que sugere que o mercado não está convencido de que o problema de energia foi resolvido. O complexo de Ras Laffan, no Catar, ainda está fechado. As refinarias danificadas ainda não voltaram. E dois anos de incerteza sobre o Estreito de Ormuz não se desfazem com um comunicado.

O recado

Seis semanas seguidas de revisão de inflação para cima, e agora o mercado mudou a trajetória esperada para os juros.

É o tipo de mudança que o BC não ignora. Na próxima reunião do Copom, a pressão para ser mais cauteloso no ritmo de cortes vai aumentar.

A guerra no Oriente Médio chegou às projeções de Selic. E isso significa que vai chegar também ao custo do crédito, ao ritmo de crescimento e, no fim, ao bolso de quem tem financiamento ou pretende tomar um.

O cessar-fogo pode mudar tudo isso rapidamente. Mas por enquanto, o Focus está contando uma história de inflação persistente e juros que caem menos do que o previsto.

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