“Não sabemos se a visita vai ajudar. Mas tem mais chance do que se não fizermos nada.”
A frase de uma autoridade brasileira envolvida na organização do encontro resume bem o espírito da visita de Lula à Casa Branca nesta quinta-feira. Não é uma visita de conquista — é uma visita de contenção de dano.
O que está em jogo
O Brasil enfrenta dois riscos tarifários simultâneos.
O primeiro é imediato: os produtos brasileiros ainda estão sujeitos a uma tarifa adicional de 10% que expira em julho. Se Trump decidir renová-la ou aumentá-la, o impacto é direto nas exportações.
O segundo é mais preocupante: nas últimas semanas, o Brasil identificou sinais de que suas exportações podem ser atingidas por novas tarifas ligadas a uma investigação da Seção 301 — o mecanismo americano para investigar práticas comerciais consideradas desleais.
Numa reunião com representantes do Departamento de Comércio dos EUA há duas semanas, os americanos “fizeram poucas perguntas” — o que autoridades brasileiras interpretaram como sinal de que a investigação não busca resolver questões comerciais, mas criar justificativa para tarifas.
“O que eles estão fazendo é criar uma base, ainda que falsa, para justificar uma posterior adoção de tarifas”, disse uma autoridade brasileira à Reuters.
O histórico recente
A relação comercial Brasil-EUA passou por turbulência em 2025.
Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros — entre as mais altas aplicadas a qualquer país — acusando o Brasil de perseguição política contra Bolsonaro.
Depois, retirou a maior parte das tarifas, incluindo as sobre carne bovina e café. Em parte para conter a inflação americana — que, neste momento de guerra no Oriente Médio, é uma preocupação política para Trump.
Em fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou as tarifas que ele havia imposto via lei de emergência nacional, eliminando boa parte do que restava.
Mas o risco não desapareceu. A investigação da Seção 301 é o novo vetor de pressão.
O que o Brasil quer oferecer
A pauta da visita tem dois temas principais: minerais críticos e crime organizado.
Minerais críticos: o Brasil tem reservas relevantes de terras raras e outros minerais essenciais para chips, veículos elétricos e equipamentos militares. Os EUA querem reduzir a dependência da China nesses materiais — e o Brasil é um fornecedor alternativo natural.
O problema: as negociações ainda não chegaram nem a um memorando de entendimento básico. Autoridades brasileiras não esperam que um acordo concreto seja fechado nesta visita. Mas a conversa sobre o tema mantém os EUA interessados em manter o Brasil como parceiro.
Crime organizado: Trump quer designar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O Brasil resiste — porque isso abriria caminho para ação militar americana em território brasileiro e para sanções contra bancos que, sem saber, façam negócios com membros dessas facções.
A alternativa que Lula vai propor: cooperação em combate ao crime organizado, lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Parceria em vez de designação.
As tensões que ficam
Mesmo com boa vontade de ambos os lados, existem pontos de atrito genuínos.
O Brasil bloqueou a renovação da moratória tarifária sobre comércio eletrônico na OMC — uma posição apoiada pelos EUA. Isso criou atritos.
O Brasil também tem tarifas altas sobre alguns produtos americanos, incluindo etanol.
E o governo americano alega que quase metade das exportações de madeira brasileira vem de fontes ilegais — acusação que o Brasil nega.
Esses são pontos que não se resolvem em uma visita. Mas podem ser gerenciados se a relação pessoal entre os líderes funcionar como amortecedor.
O que a “química” vale
O encontro na Assembleia Geral da ONU em setembro passado, onde Trump falou em “excelente química” com Lula, foi o ponto de virada na relação.
Monica de Bolle, economista do Instituto Peterson de Economia Internacional, resume bem: “Os EUA realmente precisam de algo de Lula.” A cadeia de suprimentos de minerais críticos é uma necessidade americana real — e o Brasil tem o que os EUA precisam.
Isso coloca Lula numa posição com alguma alavancagem. Não muita. Mas alguma.
O recado
Lula vai à Casa Branca sem saber se vai ajudar. Mas vai porque não ir seria certamente pior.
O Brasil está num momento de vulnerabilidade nas relações comerciais com os EUA: investigação em curso, tarifas parciais ainda vigentes, pontos de atrito em aberto.
A visita não vai resolver tudo. Mas pode segurar a próxima rodada de tarifas — pelo menos até julho, quando a tarifa de 10% expira.
Para um governo que está lidando com guerra no Oriente Médio, petróleo caro, inflação subindo e juros resistentes, evitar mais uma frente de pressão comercial com os EUA é um objetivo modesto.
E às vezes modesto é o máximo que dá para alcançar.



