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EUA anuncia Kevin Warsh como novo presidente dos FED

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Sabe quando você passa anos criticando o técnico do seu time de futebol da poltrona de casa, dizendo que ele mexe mal, que o esquema tático é burro e que você faria dez vezes melhor? E aí, de repente, o presidente do clube te contrata, te joga na beira do campo em plena final de campeonato com o estádio lotado e diz: “Agora é com você”?

Pois é. Kevin Warsh acabou de passar por isso. Nesta sexta-feira (22), ele fez o juramento e assumiu oficialmente como o 11º presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.

O problema é que ele não pegou uma economia calminha para administrar. Ele assumiu o comando em um momento em que o mercado financeiro global está operando em pânico de fim de mundo, com o petróleo quebrando a barreira dos US$ 100 por barril por causa da guerra no Oriente Médio e a gasolina americana batendo salgados US$ 4,50 por galão.

Pra completar o cenário de filme de ação, a inflação americana não quer saber de baixar e o chefe dele na Casa Branca, Donald Trump, tem a paciência do tamanho de um tuíte.

Onde o filho chora e a mãe não vê

Em bom português, Kevin Warsh passou o último ano fazendo uma espécie de “audição pública” para ganhar a simpatia de Trump. Ele criticou duramente a gestão de Jerome Powell, acusou os diretores do Fed de praticarem “pensamento de rebanho” e sempre defendeu que os juros deveriam ser mais baixos para ajudar o país a crescer.

Só que a teoria, na prática, é outra. Warsh assume com a inflação americana rodando mais de um ponto percentual acima da meta oficial de 2% (meta que o Fed não vê a cor há mais de cinco anos). Durante sua sabatina no Senado, ele mandou a frase de efeito: “A inflação é escolha do Fed”.

O grande dilema: Agora que a escolha é dele, se Warsh cortar os juros para agradar Trump, a inflação pode disparar de vez e ele vai destruir a credibilidade do banco central logo na largada. Se ele aumentar os juros para segurar os preços, ele compra uma briga de foice com o presidente que o colocou lá.

A coisa é tão tensa que o mercado de títulos do governo americano já começou a subir os juros de longo prazo por conta própria, sinalizando que não está botando muita fé de que a inflação vai cair sem remédio amargo.

A matemática do pão de queijo

Se você é um investidor de 5 anos e quer entender o tamanho do abacaxi que o Warsh tem para descascar, olhe para as forças que estão puxando o tapete dele ao mesmo tempo:

  • O choque da Inteligência Artificial: O boom da IA está mudando as empresas e o emprego em tempo real, mas também está exigindo tanta energia e infraestrutura que acabou virando um foco de aumento de custos para os serviços públicos.
  • Geopolítica no preço da bomba: Com o petróleo acima de US$ 100 por causa do conflito com o Irã, o custo do frete e da produção de tudo sobe automaticamente.
  • A herança maldita: Trump demitiuPowell (pelo menos na narrativa política) chamando-o de “tarde demais” para cortar juros, e ainda tenta na Suprema Corte tirar diretores independentes do conselho, como Lisa Cook. Warsh terá que provar que o Fed ainda é independente e não uma extensão do palácio presidencial.
  • A hora da verdade: A próxima reunião do Fed acontece nos dias 16 e 17 de junho. É ali que Warsh vai ter que colocar o seu “ponto” no gráfico de projeções e mostrar ao mundo se ele vai ser o rebelde que corta juros na marra ou se vai se render ao comportamento do rebanho para salvar a própria pele.

O pulo do gato

A grande estratégia que o mercado vai observar em Warsh nas próximas semanas não são os discursos bonitos, mas sim a sua capacidade de lidar com as expectativas.

Quando um presidente do Fed fala, o mundo para para ouvir. Se ele balançar a cabeça sugerindo que aceita uma inflação um pouco mais alta em troca de juros baixos, os investidores internacionais vão cobrar prêmios gigantescos para emprestar dinheiro para os EUA, o que encarece o financiamento de casas (as hipotecas) e o crédito para o consumidor final na ponta.

A briga de ego nos bastidores do Fed vai ser deliciosa de assistir. Warsh terá que sentar na cabeceira da mesa com os mesmos diretores que ele passou anos criticando na imprensa. Se ele tentar impor uma visão muito radical e isolada, pode sofrer um motim interno nas votações de junho.

Por que você deve se importar (mesmo morando no Brasil)

O investidor brasileiro precisa entender que o Fed é o banco central do mundo. Se Warsh errar a mão na condução dos juros americanos, o impacto cruza o oceano em velocidade recorde.

  • Dólar e Selic: Se os juros americanos continuarem altos por causa da inflação persistente por lá, o dinheiro global foge dos países emergentes e corre para a segurança dos EUA. Isso pressiona o nosso dólar para cima e obriga o Banco Central do Brasil a manter a nossa Selic nas alturas (aqueles 13,25% que o Focus já está prevendo) para evitar que o real derreta.
  • Custo de vida: Inflação global de energia e commodities significa que o seu custo de vida aqui no Brasil também não vai dar trégua tão cedo.

No final das contas, Kevin Warsh trocou o conforto do papel de crítico pelo teste de sobrevivência mais difícil do capitalismo moderno.

Como costumamos dizer no escritório: falar que o motorista está barbeando é fácil, o difícil é assumir a direção do ônibus sem freio na descida da serra e em dia de chuva. Vamos ver se o novo xerife do dinheiro global tem braço para fazer essa curva ou se vai derrapar logo no primeiro cruzamento de junho.

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