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Elon Musk estima mercado trilhonário em espaço

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Sabe quando você está jogando Banco Imobiliário, já comprou a Avenida Paulista, o Bradesco, todas as companhias de metrô e, não satisfeito, olha para o tabuleiro e pergunta se pode comprar a mesa da sala e o sofá da televisão também?

Pois é. Elon Musk cansou de brincar apenas na Terra e resolveu oficializar o tamanho da sua ambição. No documento protocolado para a abertura de capital (o famoso IPO) da SpaceX na SEC (a CVM dos americanos), a empresa revelou que o seu Mercado Total Endereçável (o tal do TAM) é de impressionantes US$ 28,5 trilhões.

Para você que não tem intimidade com tantos zeros, isso é mais dinheiro do que o PIB dos Estados Unidos inteiro. É o equivalente a dizer que a SpaceX não quer ser apenas uma empresa de foguetes; ela quer ser a dona da infraestrutura de tudo o que vai mover a humanidade nos próximos cem anos. E o mercado, claro, está olhando para esse papel com os olhos brilhando mais que a lataria de um foguete recém-saído da fábrica.

Onde o filho chora e a mãe não vê

Em bom português, o TAM é o tamanho do bolo que a empresa acha que consegue comer se tudo der certo, considerando quem ela consegue alcançar e o que ela consegue fabricar. E como a SpaceX tem satélites cobrindo o planeta inteiro, o “alcançar” deles inclui quase todo mundo — exceto a China e a Rússia, que eles deixaram de fora do relatório só para fins ilustrativos (e para evitar crises diplomáticas no meio do processo de IPO).

O bolo de US$ 28,5 trilhões é dividido em fatias bem específicas. A menor delas, ironicamente, é o próprio Espaço, que responde por US$ 370 bilhões em soluções espaciais.

Depois vem a Conectividade, com US$ 1,6 trilhão, divididos entre a banda larga da Starlink e o sinal direto para os celulares. Sabe quando você vai para o meio do mato, o sinal do seu celular morre e você fica isolado do mundo? A Starlink quer resolver isso mandando internet direto do espaço para o aparelho que já está no seu bolso.

Mas a cereja do bolo — e o motivo desse número ter ficado tão bizarro — é a Inteligência Artificial. A SpaceX colocou na conta um TAM de US$ 26,5 trilhões em IA, divididos entre infraestrutura, assinaturas e aplicações corporativas. Eles estão basicamente dizendo que os satélites e supercomputadores deles vão ser o sistema nervoso central de todas as inteligências artificiais do futuro.

A matemática do pão de queijo

Se você é um investidor de 5 anos e quer entender como essa montanha de dinheiro mexe com o seu cofrinho, preste atenção em onde a SpaceX está mirando o laser:

  • O Brasil é o queridinho deles: O nosso país já se tornou o segundo maior mercado do mundo para a Starlink, com mais de 1 milhão de clientes ativos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. O brasileiro realmente ama uma antena na laje.
  • Internet no celular em 2027: A empresa já protocolou um pedido na Anatel para liberar a tecnologia que conecta o satélite direto no smartphone a partir de 2027. É o fim da desculpa do “fiquei sem sinal”.
  • O tamanho do IPO: Ao abrir o capital na Bolsa com esses números, a SpaceX quer se posicionar imediatamente como uma das empresas mais valiosas da história humana, competindo com a Apple e a Microsoft logo no primeiro dia de negociação.
  • Exclusão estratégica: Deixar China e Rússia de fora mostra que a SpaceX quer ser a infraestrutura oficial do mundo ocidental, garantindo contratos trilionários de defesa com o governo americano e seus aliados.

O pulo do gato

A grande estratégia do Elon Musk com esse documento não é apenas impressionar os investidores com números gigantescos, mas sim mudar a percepção do que a SpaceX realmente é.

Até ontem, as pessoas viam a empresa como uma fábrica de foguetes que dava prejuízo e que dependia de contratos com a NASA. Ao colocar a Starlink e a Inteligência Artificial no centro do prospecto, Musk transforma a SpaceX em uma empresa de infraestrutura de dados e assinaturas recorrentes.

No mundo dos negócios, o mercado financeiro odeia empresas que vendem produtos sazonais (como foguetes), mas ama empresas que cobram uma mensalidade todo mês (como a Starlink). Se você consegue convencer Wall Street de que bilhões de pessoas vão pagar 50 dólares por mês para terem internet e serviços de IA vindos do espaço, o valor da sua ação vai para a Lua — com ou sem foguete.

A briga de ego aqui envolve as operadoras de telefonia tradicionais, que gastaram bilhões construindo antenas nas cidades e agora assistem a uma constelação de satélites ameaçar o negócio delas de cima para baixo. No Brasil, a aprovação da Anatel vai ser um cabo de guerra gigante entre o lobby das teles locais e o furacão tecnológico do bilionário da jaqueta de couro (não, esse é o da Nvidia, o Musk prefere camisetas de ficção científica).

Por que você deve se importar (além de querer comprar ações no IPO)

O prospecto da SpaceX mostra que o futuro da tecnologia não vai ser disputado no chão. A empresa que dominar a órbita da Terra vai controlar a velocidade da informação, a segurança dos dados e o funcionamento das inteligências artificiais corporativas.

Para o pequeno investidor, o IPO da SpaceX em 2026 vai ser o evento da década. Mas a regra de ouro do investidor inteligente continua valendo: promessa de mercado futuro não é lucro no presente. Um TAM de US$ 28,5 trilhões é uma estimativa teórica fantástica, mas a empresa ainda precisa gastar bilhões para colocar todos esses satélites lá em cima e fazer a tecnologia rodar sem travar.

No final das contas, o Elon Musk colocou o preço do universo no papel e entregou para os reguladores americanos assinarem. Como costumamos dizer no escritório: se você vai chutar um número para o seu chefe, chute um tão grande que ele precise de uma semana inteira só para conseguir contar os zeros. Resta saber se o mercado vai comprar a passagem para essa viagem espacial ou se vai preferir ficar com os pés no chão assistindo ao lançamento de camarote.

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