INTERNACIONAL

Venezuela pode trocar de moeda para parar hiperinflação

image

Quando a moeda de um país perde 78% do seu valor em 12 meses, você não tem mais um sistema monetário; você tem uma máquina de moer poder de compra. É exatamente nesse cenário de colapso que reaparece a figura de Steve Hanke, o “Doutor Dinheiro”.

O professor de economia aplicada da Universidade Johns Hopkins — famoso por convencer governos a jogarem suas próprias moedas no lixo para estancar a inflação — agora atua como assessor especial da Assembleia Nacional da Venezuela. A sua prescrição médica é direta e sem anestesia: dolarização plena, o que significa extinguir o bolívar e fechar as portas do Banco Central venezuelano.

O Diagnóstico do Mestre: Matar a Impressora para Salvar o Paciente

A lógica de Hanke ataca a raiz histórica das crises de hiperinflação na América Latina: a tentação dos governos de imprimirem dinheiro para cobrir rombos orçamentários. Sem um banco central sob controle político, o governo simplesmente perde a capacidade de fabricar moeda sem encosto real.

┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│                      A ESPIRAL DA HIPERINFLAÇÃO                             │
└─────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┘
                                       │
      ┌────────────────────────────────┴────────────────────────────────┐
      ▼                                                                 ▼
[Déficit Fiscal do Governo]                                 [Impressão desenfreada de Bolívar]
Financiamento de gastos sem receita.                        Banco Central emite moeda sem encosto.
      │                                                                 │
      └────────────────────────────────┬────────────────────────────────┘
                                       ▼
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│                      SOLUÇÃO VIA DOLARIZAÇÃO PLENA                          │
├─────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┤
│  • Extinção do Bolívar e fechamento do Banco Central                         │
│  • Perda de autonomia monetária (politica do Fed passa a ditar as regras)   │
│  • Preços travados em moeda forte → Fim da hiperinflação instantâneo        │
└─────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┘

O Histórico de Casos do “Doutor Dinheiro”

Hanke não está tirando o plano do papel pela primeira vez. Ele possui um currículo extenso de intervenções monetárias extremas ao redor do mundo:

  • Montenegro (1999): Convenceu o governo a trocar o dinar iugoslavo pelo marco alemão.
  • Equador (2000): Supervisionou a migração do sucre para o dólar americano — a primeira dolarização oficial da América Latina em um século.
  • Zimbábue (2009): Atuou como assessor na transição para o dólar, estabilizando a economia (até que um novo governo abandonou a moeda em 2013 e a inflação retornou).

Na Venezuela, esta é a sua segunda tentativa, após um plano de currency board nos anos 1990 ter sido rejeitado pela Assembleia. Agora, Hanke estima entre 50% e 80% as chances de aprovação da mudança.

A Realidade das Ruas vs. O Dilema Político

Um dos trunfos do plano de Hanke é a dolarização espontânea. Praticamente toda a população venezuelana que não depende diretamente de cheques do governo já negocia produtos e serviços em dólares para fugir da desvalorização diária do bolívar. Oficializar a medida seria, em termos práticos, alinhar a lei à realidade da rua.

Contudo, os obstáculos políticos e estruturais são gigantescos:

  • Perda do Emprestador de Última Instância: Ao fechar o Banco Central, o país perde a capacidade de injetar liquidez no sistema bancário durante crises. A política monetária passa a ser ditada, na prática, pelo Federal Reserve em Washington.
  • O Recuo Argentino de Milei: Até o presidente Javier Milei, que fez da dolarização a sua principal bandeira de campanha na Argentina, precisou recuar após assumir o cargo devido à falta de reservas e aos impactos políticos de defender o peso atrelado à moeda norte-americana.
  • A Montanha de Dívida: A Venezuela carrega uma dívida externa de US$ 250 bilhões (cerca de 150% do PIB). Hanke argumenta que a dolarização atrairia investimentos maciços para a indústria petrolífera nacional, e o aumento da produção geraria os dólares necessários para amortizar o principal e os juros da dívida.

Se aprovada, a transição venezuelana representará a maior substituição de uma moeda doméstica por uma divisa estrangeira desde a criação do euro em 1999.

Fonte